Cultura

Elogio da comédia clássica

João Lopes

João Lopes

Crítico de Cinema

Depois de uma colecção de sucessos ao lado de Dean Martin, Jerry Lewis estreou-se na realização com “Jerry no Grande Hotel”, acumulando as funções de actor, argumentista e produtor — foi há 60 anos.

Não creio que as gerações mais novas conheçam muito da obra de Jerry Lewis (1926-2017). O que é, no mínimo, desconcertante, uma vez que ele pertence à árvore genealógica da comédia, isto é, um dos géneros mais populares do cinema… e da televisão. Daí essa situação bizarra: os filmes de Jerry Lewis passaram da condição de grandes sucessos de bilheteira a objectos mais ou menos esotéricos que, de vez em quando, passam nas cinematecas.

Não é uma atribuição de “culpas” — os caminhos dos circuitos de difusão são complexos e, como é óbvio, mudaram radicalmente nas últimas décadas. Apenas um desabafo a propósito de uma efeméride: foi há 60 anos (no dia 20 de Julho de 1960) que se estreou nos EUA “The Bellboy”, a sua primeira longa-metragem como realizador em que, além de actor principal, Jerry Lewis assumiu também as funções de argumentista e produtor. Lançado entre nós como “Jerry no Grande Hotel”, o filme ilustra de forma exemplar o modo como o seu autor evoluiu através de um requintado cruzamento das narrativas do cinema com os métodos da televisão.

Estamos perante um verdadeiro clássico, alguém que recebera a herança dos mestres vindos do mudo (Charlie Chaplin, Buster Keaton, etc.), sabendo prolongá-la e, de alguma maneira, reinventá-la. No começo dos anos 60, Jerry Lewis era um criador “dividido”: em cinema, terminara a sua aliança com Dean Martin (a dupla existiu ao longo de 16 filmes produzidos no período 1949-1956); na televisão, “The Jerry Lewis Show” (criado em 1957) explorava um genial jogo de variações sobre cenas dos seus filmes, sendo também um laboratório de experimentação de novas personagens e situações.

Não admira que “Jerry no Grande Hotel”, centrado na figura de um empregado de hotel especialmente... desastrado, seja menos uma história tradicional e mais uma colagem de episódios que quase poderiam funcionar como outros tantos números televisivos. Encontramos, assim, duas fundamentais linhas de filmografia de Jerry Lewis: uma observação metódica e sarcástica do trabalho e uma visão crítica, por vezes de implacável contundência, dos próprios bastidores de Hollywood — o trailer original pode servir de exemplo.