Cultura

No “drive-in”, com Charlize Theron

Charlize Theron no papel de Furiosa, na versão de "Mad Max" lançada em 2015

João Lopes

João Lopes

Crítico de Cinema

Recentemente, a actriz Charlize Theron esteve numa projecção do filme em que interpretou a personagem da Imperatriz Furiosa: “Mad Max: Estrada da Fúria” foi um evento muito especial no cenário de um “drive-in” de Los Angeles.

A situação de pandemia está a ter um efeito paradoxal na nossa relação com os filmes. Por um lado, é verdade que os consumos das plataformas de streaming aumentaram de modo exponencial; por outro lado, talvez nunca como agora tenhamos valorizado de forma tão convicta, e também tão ansiosa, a possibilidade de vermos cinema integrados no colectivo de uma sala escura.

Foi, antes do mais, para valorizar essa experiência que no sábado, dia 1 de Agosto, Charlize Theron marcou presença numa especialíssima projecção de “Mad Max: Estrada da Fúria” (2015), de George Miller, o épico de aventuras em que interpreta a Imperatriz Furiosa [video]. Aconteceu à noite, mas não exactamente numa sala de cinema: Theron e Nicholas Hoult (outro dos principais intérpretes) apresentaram o filme num “drive-in” montado na zona de estacionamento de The Grove, uma das maiores superfícies comerciais de Los Angeles (mais de 50.000 m2). As receitas do evento reverteram para a Africa Outreach Project, organização humanitária criada pela actriz com o objectivo de apoiar os jovens africanos na luta contra a sida.

O acontecimento ocorreu pouco mais de um mês depois de Miller, em entrevista ao “New York Times”, ter declarado que o seu projecto de fazer um novo filme sobre Furiosa já não contará com a actriz: será uma “prequela”, evocando a juventude da personagem. Entretanto, Theron já dera conta da desilusão com que recebeu a notícia, embora considerando que se trata de uma opção artística que, naturalmente, compreende e aceita.

Descrito pela imprensa americana como um misto de sessão de cinema e celebração social, com bilhetes a mil dólares (cerca de 850 euros, para duas pessoas), a projecção de The Grove é um sugestivo sintoma dos desafios culturais e comerciais que a conjuntura nos coloca — para todas as actividades profissionais, como é óbvio. No caso particular do cinema, vale a pena notar que não se perdeu o valor segundo o qual ver um filme envolve algum tipo de colectivo e, nessa medida, formas específicas de cumplicidade.