Cultura

Como pode evoluir o mercado cinematográfico?

Uma sala da AMC nos EUA: como estabelecer novas relações com as plataformas de streaming?

João Lopes

João Lopes

Crítico de Cinema

A situação de pandemia reforçou a necessidade (mais do que isso: a urgência) de reflectir sobre as relações entre salas escuras e plataformas de streaming — na certeza de que umas e outras são vitais para o futuro do universo cinematográfico.

Adam Aron, americano, 65 anos, ocupa desde 2015 a presidência do grupo AMC, a maior empresa de salas de cinema em todo o mundo. Há dias, segundo notícia publicada por “The Hollywood Reporter”, Aron celebrava o “heroísmo” do estúdio Warner Bros. por não ter abdicado de lançar nas salas de todo o mundo o muito aguardado “Tenet” [trailer aqui em baixo]: depois de vários adiamentos devido à pandemia, o novo filme de Christopher Nolan vai começar a ser exibido ao longo deste mês de Agosto (dia 27 em Portugal).

Vive-se, afinal, uma bizarra “quadratura do círculo”: como corresponder ao espectacular crescimento dos consumos caseiros sem anular o facto, cultural & comercial, de o cinema ser (continuar a ser) uma experiência indissociável das peculiaridades materiais e simbólicas das salas escuras?

A declaração de Aron surgiu a propósito de uma notícia que, no actual contexto, possui um fortíssimo valor sintomático. Assim, a AMC conseguiu chegar a acordo com um dos grandes estúdios de Hollywood, Universal Pictures, no sentido de alterar a habitual “janela” temporal entre a data de estreia de um filme e o seu aparecimento nas plataformas de streaming.

Que vai acontecer? Nas salas AMC, os filmes da Universal já não estarão cerca de três meses em exclusivo, para só depois começarem a estar disponíveis nos video-clubes, no chamado VOD (“video on demand”). A “janela” foi reduzida para 17 dias, embora como uma contrapartida importante: quando os filmes chegarem aos serviços “premium” (PVOD), uma percentagem (não revelada) do seu aluguer reverterá para a AMC.

Ninguém poderá dizer que estamos perante uma norma a ser rapidamente instituída como regra geral. Mas o acordo que a sustenta é bem revelador de uma urgência indesmentível, aliás já pressentida antes da pandemia: todas as entidades que difundem filmes terão de repensar as suas prioridades e, em particular, as suas relações comerciais. Por alguma razão, Adam Aron deu também conta da sua disponibilidade para dialogar com todos os estúdios de Hollywood… Está em jogo, não apenas o futuro das salas, mas a evolução de todo o mercado cinematográfico.