Cultura

Sessão de cinema: "Sangue do Meu Sangue"

"Sangue do Meu Sangue": um filme de ficção contaminado por valores documentais

João Lopes

João Lopes

Crítico de Cinema

Com assinatura de João Canijo, “Sangue do Meu Sangue”, agora disponível online, é um caso exemplar de uma ficção portuguesa que aposta em integrar muitos elementos de natureza documental.

Nas últimas duas décadas, sobretudo após o triunfo de “Fahrenheit 9/11”, de Michael Moore, no Festival de Cannes de 2004, muito se tem falado sobre a importância do cinema documental e, em particular, sobre as possibilidades de “cruzamento” do documento com a ficção. No panorama da produção portuguesa, Sangue do Meu Sangue (2011), de João Canijo, permanece como um dos exemplos mais importantes e também mais inventivos de tais possibilidades.

Estamos, para todos os efeitos, perante uma narrativa ficcional. Desde logo porque aqui encontramos um conjunto de actores apostados em criar personagens que se distinguem por muitos contrastes afectivos — no elenco surgem, entre outros, os nomes de Rafael Morais, Anabela Moreira, Cleia Almeida e Rita Blanco (na imagem aqui reproduzida), a par de Marcelo Urgeghe, Nuno Lopes, Beatriz Batarda, Fernando Luís, Teresa Madruga, Teresa Tavares, Francisco Tavares e Wilma de Brito.

Para contar a história de uma mãe solteira a viver com os seus dois filhos num bairro municipal, João Canijo criou com os seus actores uma comunidade de representação que, de alguma maneira, viveu em condições materiais próximas das figuras que interpretam. Dito de outro modo: a ficção nasceu também a partir de elementos de natureza documental, como se se tratasse de fazer uma “reportagem” sobre os actores a inventarem as suas próprias personagens.

Agora disponível numa plataforma de streaming, “Sangue do Meu Sangue” existe como exemplo de um cinema genuinamente social, no sentido em que se mantém atento aos modos de vida de personagens mais ou menos anónimas, reflectindo sobre transformações urbanas, familiares e simbólicas que afectam os modos de vida de toda a colectividade. Nesta perspectiva, podemos também dizer que continua bem viva a herança temática e narrativa do Cinema Novo português das décadas de 1960/70.

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