Cultura

Nos 50 anos de “Five Easy Pieces”

Jack Nicholson em "Five Easy Pieces": "Easy Rider" tinha acontecido um ano antes

João Lopes

João Lopes

Crítico de Cinema

Rodado um ano depois de “Easy Rider”, este é um dos títulos mais importantes da fase inicial da carreira de Jack Nicholson: “Five Easy Pieces” observa um tempo (americano e não só) de profundas transformações sociais.

Quando se evoca a primeira fase da carreira de Jack Nicholson, é inevitável destacar a sua presença em “Easy Rider” (1969): ao lado de Dennis Hopper e Peter Fonda, Nicholson impôs-se, não apenas como um actor de invulgar versatilidade, mas também um símbolo da contra-cultura dos anos 60/70. O certo é que tal destaque tende a fazer esquecer um filme que protagonizou logo no ano seguinte, também uma referência exemplar da produção americana da época: “Five Easy Pieces”, entre nós lançado como “Destinos Opostos”.

Agora que passa o cinquentenário de “Five Easy Pieces” — a estreia ocorreu a 12 de Setembro de 1970 —, vale a pena sublinhar a sua importância temática e simbólica, tanto mais que, infelizmente, não tem sido um título muito favorecido pelos circuitos alternativos.

Realizado por Bob Rafelson (cuja proeza mais célebre é a versão moderna de “O Carteiro Toca Sempre Duas Vezes”, também com Jack Nicholson, lançada em 1981), “Five Easy Pieces” não deixa de ter algumas semelhanças com “Easy Rider”, quanto mais não seja pelo espírito de deambulação que anima a personagem central.

Nicholson interpreta um trabalhador da indústria petrolífera, na Califórnia, que, de facto, possui uma formação clássica de pianista. A sua viagem para reencontrar o pai, em precário estado de saúde, envolve, assim, uma possibilidade de apaziguamento dos seus próprios dramas… Ou talvez não.

Através de uma brilhante direcção de actores — com destaque para as magníficas composições de Karen Black e Susan Anspach (a primeira distinguida com um Globo de Ouro) —, Rafelson elabora o retrato íntimo de uma América a contas com a decomposição dos seus laços tradicionais, do trabalho ao território familiar. “Five Easy Pieces” ilustra, afinal, a singular energia de um cinema americano que, na encruzilhada da história, se mostrava capaz de dar conta das convulsões de um tempo de profundas transformações sociais.