Cultura

Sessão de Cinema: “Playtime - Vida Moderna”

Jacques Tati em "Playtime" (1967): uma obra-prima da comédia

João Lopes

João Lopes

Crítico de Cinema

Disponível em streaming, a obra de Jacques Tati constitui um fundamental capítulo do género cómico e também na história do cinema francês: “Playtime” é a sua visão amarga e doce da vida moderna numa grande cidade.

Os automóveis a progredir lentamente em ruas super-lotadas, os prédios de fachadas de vidro, todos iguais, as pessoas a trabalhar em cubículos, também todos iguais, dispostos de acordo com uma impecável geometria: assim é a vida moderna, tal como o Sr. Hulot, inconfundível com o seu chapéu e guarda-chuva, a observa em “Playtime”, entre nós lançado, precisamente, com o subtítulo “Vida Moderna”. É uma obra-prima de Jacques Tati (1907-1982), personalidade nuclear na história do género cómico e também de todo o cinema francês — por alguma razão, os autores da “Nouvelle Vague” o escolheram como uma das suas referências simbólicas.

A boa notícia é que as seis longas-metragens de Tati, de “Há Festa na Aldeia” (1949) a “Parade” (1974) passaram a estar disponíveis em streaming. “Playtime”, estreado em 1967, pode ser considerado o centro irradiante da sua obra, já que condensa a sua curiosidade, e também o seu desencanto, face às formas de vida da sociedade de consumo.

“Playtime” não tem propriamente uma história, em sentido tradicional. Tomando como pretexto a circulação de um grupo de turistas americanos à descoberta de Paris — numa altura em que o reconvertido e ampliado Aeroporto de Orly era local de visita obrigatória —, Tati revela-nos uma cidade em que a multiplicação dos elementos da nova tecnologia vai a par da automatização das relações humanas.

No meio dessa divertida confusão, Hulot, interpretado pelo próprio Tati (desde “As Férias do Sr. Hulot”, em 1953), é um observador cândido do “progresso”, quase sempre mal adaptado àquele mundo de muitos vidros e superfícies metalizadas. Através de um humor hiper-sofisticado, atento a todos os detalhes, “Playtime” é, afinal, um testemunho das atribulações da vida citadina cuja delicadeza de observação e pertinência crítica têm sido confirmadas pela passagem das décadas.

Filmin

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