Cultura

“Fantasia” faz 80 anos

Mickey em "Fantasia": os desenhos animados entre a fábula e a música

João Lopes

João Lopes

Crítico de Cinema

Na história dos desenhos animados, “Fantasia” é um marco incontornável: segunda longa-metragem de animação produzida por Walt Disney, o filme ensaiava uma nova relação com as peças musicais — foi em 1940.

A recente estreia de uma nova versão cinematográfica de “Pinóquio”, assinada por Matteo Garrone, com Roberto Benigni no papel de Gepetto (foi o filme de abertura da 13ª Festa do Cinema Italiano), trouxe inevitáveis memórias do “Pinóquio”, de Walt Disney, segunda longa-metragem dos respectivos estúdios, lançada no começo de 1940 (a primeira, “Branca de Neve e os Sete Anões”, surgira em 1937).

Menos lembrada é “Fantasia”, a outra longa que Disney estreou também em 1940, faz agora 80 anos — a primeira exibição pública ocorreu em Nova Iorque, a 13 de novembro, no Broadway Theatre. O menos que se pode dizer é que a sua herança envolve, não apenas uma arrojada utilização das técnicas de animação cinematográfica, mas também um gosto genuinamente experimental.

O trailer original de “Fantasia” [video] celebrava a conjugação de dois factores fundamentais: por um lado, a apoteose do Technicolor, na altura uma novidade de especial valor artístico e importância promocional (um dos símbolos mais fortes das suas maravilhas cromáticas, “E Tudo o Vento Levou”, surgira um ano antes); por outro lado, a banda sonora feita de peças clássicas (Bach, Beethoven, Schubert, etc.), interpretadas pela Orquestra de Filadélfia dirigida pelo lendário maestro Leopold Stokowski.

O Rato Mickey, então já a mais popular personagem do universo Disney, surgia numa sequência muito especial, num registo de fábula enquadrado pela música de Paul Dukas (“O Aprendiz de Feiticeiro”). Em boa verdade, o filme nem sequer funciona como uma “história”, com princípio, meio e fim, existindo antes como colagem de sequências mais ou menos autónomas que definem um espectáculo realmente inovador, “unificado” pela utilização das matérias musicais.

Como se costuma dizer, o resto é história… Que é como quem diz: em 1941 e 1942 surgiriam mais dois títulos míticos dos desenhos animados segundo Disney — foram eles, respectivamente, “Dumbo” e “Bambi”.