Cultura

Marcelo elogia Artur Portela Filho, de quem foi "colega, amigo e alvo"

HUGO DELGADO

O escritor morreu esta quarta-feira aos 83 anos.

O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, considerou esta quarta-feira que Artur Portela Filho "foi um dos mais reconhecíveis estilistas portugueses do último meio século", a propósito da sua morte.

O jornalista e escritor Artur Portela, conhecido como Artur Portela Filho, morreu esta quarta-feira aos 83 anos em Abrantes, disse fonte da família na terça-feira à agência Lusa.

Em nota colocada no sítio oficial da Presidência, Rebelo de Sousa, depois de o classificar como "alegórico, sarcástico, paródico, barroco", afirmou que "o Artur Portela cronista é ainda hoje um dos melhores e mais truculentos guias dos anos de transição entre regimes, bem como das vicissitudes da jovem democracia, comentando a atualidade de forma bem mais empenhada do que na ironia distante que identificamos com o queirosianismo".

Descrevendo-se como "seu colega de lides jornalísticas, seu amigo e às vezes seu alvo", o Presidente recordou que "os seus contos e novelas constituíram uma tentativa portuguesa de diálogo com o nouveau roman francês (...). Mas foi como jornalista, colaborador de vários jornais, diretor do "Jornal Novo" e da revista "Opção", e sobretudo como cronista, que se notabilizou".

Fonte da família adiantou que Portela Filho foi hospitalizado em Abrantes com diagnóstico de pneumonia e infeção com covid-19.

Jornalista, escritor, publicitário, investigador, com formação em História, Artur Portela nasceu em 1937 numa família de escritores e jornalistas; herdou do pai o nome, mas assinava Artur Portela Filho.

Fundou e dirigiu nos anos 1970 o Jornal Novo e depois o semanário Opção, passou pela redação de vários meios de comunicação, como Diário de Lisboa, A Capital, TSF e RTP.

Nos anos 1990 integrou a Alta Autoridade para a Comunicação Social, antecessora da Entidade Reguladora para a Comunicação Social.

Artur Portela Filho publicou vários volumes de crónicas, sempre de observação atenta à atualidade política e social, nomeadamente "A Feira das Vaidades" e "A funda", que ainda afrontaram o regime do Estado Novo.

"O código de Hamurabi" (1962), "Marçalazar: Romance" (1977), "Três lágrimas paralelas" (1987), "As noivas de São Bento" (2005) e "A guerra da meseta" (2009) são algumas das obras de ficção que publicou.

Admirador da obra de Eça de Queirós, Artur Portela Filho chegou a adaptar para teatro a obra "A Capital", publicou o estudo "Eça é que é Eça" e assinou várias crónicas recuperando a personagem Conde de Abranhos.

Destaque ainda para a entrevista biográfica ao escritor José Cardoso Pires, editada pelas Publicações D. Quixote, "Cardoso Pires por Cardoso Pires".

Numa entrevista em 2018 ao jornal Público, Artur Portela Filho sublinhava que nasceu em 1937, "no furacão da Guerra Civil de Espanha".

Quando questionado sobre a vida passada, respondeu: "Sim, valeu a pena. Sem dúvida que este país vale a pena, não tenho uma má relação com o meu país nem com os meus concidadãos. Tenho seis filhos e oito netos, a maioria das vezes é uma retaguarda confortável, dá-me ânimo e claro que valeu a pena".