Cultura

Novo livro de Mia Couto é uma viagem ao passado e às "ausências" que o marcaram

"O mapeador de ausências" já está editado em Portugal.

"O mapeador de ausências", novo romance do escritor moçambicano Mia Couto, começou por ser uma homenagem à cidade da Beira, mas acabou por se tornar uma viagem ao passado do autor e às "ausências" que o marcaram para sempre.

A construção do livro começou por uma ideia vaga e depois foi ganhando forma - como, aliás, acontece com todas as suas obras -, e a história foi-se revelando, contou o escritor, durante o lançamento 'online' de "O mapeador de ausências", editado pela Caminho, na terça-feira à noite.

"Inicialmente, a história era muito centrada sobre a cidade da Beira, mas depois foi mudando, o meu pai, a minha mãe, e a infância foram ganhando força, essa casa tão cheia de memórias", disse o escritor.

Até o título era outro, "A sombra da libélula", mas o autor acabou por ter de o mudar quando descobriu que já existia, num livro pornográfico, contou.

"O mapeador de ausências" tem como narrador Diogo Santiago, um prestigiado e respeitado intelectual moçambicano, que é, na verdade, o próprio Mia Couto.

Professor universitário em Maputo e poeta, desloca-se pela primeira vez em muitos anos à sua terra natal, a cidade da Beira, nas vésperas do ciclone que a arrasou em 2019, para receber uma homenagem que os seus concidadãos lhe querem prestar.

Este desastre natural que assolou a cidade moçambicana foi o gatilho necessário para o livro, no qual Mia Couto trabalhou durante os últimos três anos.

"O que me fez ter mais certeza que ia fazer este livro foi o ciclone que assolou a minha cidade", e que o fez temer "ficar sem o chão" da sua infância".

Foi assim que decidiu recuar nas memórias até chegar à sua casa de infância, ao pai, à mãe, e construir uma história que é a da sua adolescência.

"Quando vou à busca do passado e visito a casa de infância, claro que os meus pais estão lá, mas só depois de eles terem morrido é que percebi como foi profundo o que me deram e como me marcaram", mesmo o pai sendo uma figura "ausente".

Fernando Couto, que morreu em 2013, foi jornalista, editor e poeta.

"Ele era uma ausência, mesmo quando estava presente, era ausente, sempre perdido nos seus livros", recordou Mia Couto, revelando que foi precisamente quando foi "mapear" o seu passado que descobriu "ausências" que o marcaram e o definiram.

Daí nasceu o título do livro, que dá cobertura também às diversas personagens da história, todas elas "construídas por metade".

"Há algo que não as define, que não fecha, que fica incompleto. É essa ausência também, sou eu a mapear a ausência de personagens que deixam uma pegada meio apagada pelo tempo. É intencional, há sempre qualquer coisa nas personagens que fica na sombra", explicou.

Assim, em "O mapeador de ausências", o regresso de Diogo Santiago à Beira é o regresso a um passado longínquo, à sua infância e juventude, quando Moçambique ainda era uma colónia portuguesa e ele era um menino branco, filho de um pai jornalista e, sobretudo, poeta, e de uma mãe com um grande sentido prático.

A história desenrola-se então em dois planos temporais, pré e pós-independência, em 1973 e 2019, intercalando tempo presente, transmitido pela oralidade, porque é onde se passa a ação, com a narrativa do passado, contada através de uma sequência de cartas e documentos.

Mia Couto assinalou que se trata de "um livro num país em que há uma enorme diferença entre oralidade e escrita, como se fossem dois idiomas e tivesse que se "distribuir entre os dois", e sublinhou que é "essencial manter" essa identidade

"O que junta tudo é sempre a poesia"

Quando a história de "O mapeador de ausências" volta atrás no tempo, arrastada pelas memórias de Diogo Santiago, são relatados episódios vividos com o pai, como duas viagens ao local de terríveis massacres cometidos pela tropa colonial, a sua perseguição e prisão pela PIDE, mas sobretudo, em tudo, o seu amor pela poesia.

A poesia é tão presente em toda a obra, que Mia Couto afirmou mesmo que nesta história, que mistura géneros como romance, reportagem, novela e poesia, "o que junta tudo é sempre a poesia".

"Não seria capaz de encontrar coerência se não fosse através da poesia, do poeta que era o meu pai e que é Diogo, que sou eu".

Na história surge um leque de dezenas de personagens diversos e complexos, entre os quais, alguns que atravessam o livro, começando no passado e estendendo-se vivos até ao presente.

É o caso de um criado, Benedito (agora dirigente da FRELIMO) e o seu irmão Jerónimo Fungai, Mariana Sarmento, uma mulher bela mas infeliz, o farmacêutico Natalino Fernandes, que queria ser médico, o inspetor da PIDE Óscar Campos, ou Maniara, uma mulher tenaz e poderosa.

Entre os mortos, sobressaem personagens como o régulo Capitine, que vê uma mulher a voar.

Essa mulher é Ermelinda, também conhecida por Almalinda, que se suicida, um episódio inspirado no caso real da portuguesa Olívia, que morreu quando caiu de um prédio, em Moçambique, num caso que se suspeita ter sido um assassinato.

"Foi à minha mãe que fui buscar todas as vozes que povoam a minha imaginação"

Mia Couto confessa que na escrita de um livro, uma das coisas que mais o fascina é a invenção das personagens, que se lhe vão revelando aos poucos.

Sobre as personagens femininas, em particular, geralmente dotadas de grande força, o escritor afirma que se inspira na mãe, uma "mulher muito forte", numa casa só de homens (o marido e os três filhos).

"Foi à minha mãe que fui buscar todas as vozes que povoam a minha imaginação, são o resultado de uma teia que ela criava e a forma como a criava, em que tudo nela se transformava numa história. Ela é a autora de todas as minhas histórias".

No presente, o livro acompanha uma história de amor que, dependendo do ponto de vista, também pode não ter chegado a sê-la.

"O mapeador de ausências" foi lançado na cidade da Beira na semana passado e vai ser lançado em Maputo na próxima quinta-feira. É editado em Portugal pela Caminho.