Cultura

Sessão de Cinema: “César Deve Morrer”

Opinião

"César Deve Morrer" ou Shakespeare encenado numa prisão de Itália

Na trajetória dos irmãos Taviani, este foi um dos derradeiros títulos de uma obra de profunda originalidade — venceu o Festival de Berlim de 1982.

O trabalho dos irmãos Paolo Taviani (n. 1931) e Vittorio Taviani (1929-2018) define um capítulo à parte no interior da história do cinema italiano. O seu gosto realista, mas também a sua paixão pelo teatro, não são estranhos a outros autores de Itália, mas é um facto que há nos Taviani uma linguagem muito particular, dir-se-ia a meio caminho entre a observação quase documental e o mais elaborado artifício.

Um bom exemplo poderá “César Deve Morrer”, um dos seus derradeiros títulos, premiado com o Urso de Ouro do Festival de Berlim de 2012 (agora disponível numa plataforma de streaming). O projecto tem como fundamento um invulgar ponto de partida: este é o registo de uma encenação do “Júlio César”, de William Shakespeare, a cargo dos reclusos da prisão de Rebibbia, nos arredores de Roma.

Alternando imagens a cores com registos a preto e branco, o filme possui a respiração ambígua de uma ficção recheada de elementos de natureza documental. Por um lado, há um verdadeiro empenho dos reclusos, afinal tentando reforçar os seus laços, nem sempre fáceis, nem sempre automáticos, de solidariedade; por outro lado, as palavras de Shakespeare ecoam no presente como símbolos plurais das relações humanas e, em particular, dos labirintos do poder político.

“César Deve Morrer” foi um dos títulos marcantes da produção europeia de 2012. Além de Berlim, o filme marcou presença em festivais de todo o mundo, tendo também vencido alguns dos principais prémios David di Donatello (da produção italiana), incluindo melhor realização e melhor filme do ano.

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