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Opinião

"Collective": produção romena está nomeada nas categorias de documentário e filme internacional

É um facto: depois do que aconteceu nas salas em anos recentes, o género documental passou a ter uma presença forte também nas plataformas de streaming — e com belos filmes para descobrir.

Este ano, nas nomeações para os Óscares, encontramos uma “sobreposição” pouco comum: um mesmo filme surge nomeado para as importantes categorias de melhor documentário e melhor filme internacional (ex-melhor filme estrangeiro). A honra cabe a “Collective”, produção romena realizada por Alexander Nanau, espantoso testemunho sobre um caso de corrupção envolvendo figuras da política e do sistema hospitalar da Roménia, tanto mais interessante quanto o filme se constrói a partir de um inquérito jornalístico sobre os factos em causa — o filme está adquirido para o mercado português pela distribuidora Films4You.

Em boa verdade, o exemplo de “Collective” não vale apenas pela sua pertinência temática e agilidade narrativa. Estamos também perante um sinal que, mais do que nunca, importa valorizar: os filmes dos Óscares testemunham, afinal, a notável vitalidade do género documental.

Exemplo sugestivo será, sem dúvida, A Sabedoria do Polvo, sobre a convivência de um cientista, explorador dos oceanos, com um… polvo. Aliás, este filme serve também de desmentido de um velho lugar-comum: os documentários não são objectos “destinados” a circuitos mais ou menos marginais — “A Sabedoria do Polvo” é mesmo um dos sucessos recentes da Netflix. Sem esquecer, claro, o caso prodigioso de “Time”, no PrimeTime, documentando a saga de uma mulher afro-americana que, ao longo de 18 anos, tentando que seja reavaliada a pena de prisão a que o marido foi condenado, se confronta com muitos e perturbantes silêncios do sistema judicial [trailer].

A actual vitalidade dos documentário, sendo criativa, é também especificamente comercial. Assim, depois da crescente implantação dos documentários nas salas escuras, o género marca também presença, por vezes com significativo impacto, nas plataformas de streaming. Ou ainda: nem só de super-heróis vive o cinema — convém não menosprezar as histórias de gente viva em lugares muito reais.