Cultura

Memórias de “O Cowboy da Meia-Noite”

Jon Voight e Dustin Hoffman em "O Cowboy da Meia-Noite", Oscar de melhor filme de 1969

“O Cowboy da Meia-Noite” ganhou três Óscares, incluindo o de melhor filme de 1969; ainda assim, nesse ano, o filme mais premiado foi o western “Dois Homens e um Destino”.

Para a maior parte dos espectadores mais jovens é bem provável que a importância histórica, social e simbólica de um filme como “O Cowboy da Meia-Noite” (1969), de John Schlesinger, seja um assunto inexistente. Não os censuro por isso. De facto, a saga de dois heróis falhados, interpretados pelos magníficos Jon Voight e Dustin Hoffman, nos bastidores mais degradados da metrópole novaiorquina quase desapareceu de circulação.

O filme é célebre, antes do mais, pelo facto de o seu realismo cru e desencantado, em particular nas cenas com evidentes componentes sexuais, ter suscitado uma reacção de defesa da própria indústria: recebeu a classificação “X”, aplicada apenas aos produtos de teor pornográfico. Ao mesmo tempo, isso não o impediu de um raro reconhecimento artístico: nos Óscares entregues a 7 de abril de 1970, “O Cowboy da Meia-Noite” recebeu três estatuetas douradas, incluindo a de melhor filme.

Lembrei-me destas memórias ao ler a notícia da morte de B. J. Thomas, no dia 29 de maio, contava 78 anos. Cantor de uma pop tradicional, marcada pela tradição “country”, foi ele o intérprete do célebre “Raindrops Keep Fallin’ on My Head”, tema da dupla Burt Bacharach/Hal David que, naquele ano, arrebatou o Óscar de melhor canção. Mais do que isso: o respectivo filme, “Dois Homens e um Destino”, um western de George Roy Hill com Paul Newman e Robert Redford, conseguiu a proeza rara de ganhar mais prémios do que o próprio filme eleito como melhor do ano — foram quatro Óscares, incluindo ainda os de melhor música (também para Bacharach), melhor argumento original (William Goldman) e melhor fotografia (Conrad L. Hall).

Eram tempos fascinantes de Hollywood, marcados pelo reconhecimento de que os clássicos modelos de heroísmo não se repetiriam — no caso de “O Cowboy da Meia-Noite”, através de um espírito eminentemente trágico; com “Dois Homens e um Destino”, decompondo a tragédia num registo pleno de desconcertante ironia e humor. Vale a pena rever e escutar B. J. Thomas a interpretar a canção que fez dele uma estrela.