Cultura

Teatro D. Maria repõe "Aurora Negra", espetáculo contra a invisibilidade dos corpos negros

TNDMII

Espetáculo vencedor da Bolsa Amélia Rey Colaço regressa ao palco.

A invisibilidade dos corpos negros nas artes performativas está na base de "Aurora Negra", espetáculo vencedor da Bolsa Amélia Rey Colaço, estreado em setembro no Teatro D. Maria II, em Lisboa, e que hoje regressa a este palco.

Criado e interpretado por três mulheres negras, Cleo Tavares, Isabél Zuaa e Nádia Yracema, a peça pretende ser "um mergulho" sobre as experiências das três atrizes portuguesas que partilham as suas vivências, desconstruindo estereótipos a partir das suas próprias memórias, que começam na infância e atravessam todo um percurso de vida até à verificação da invisibilidade a que os corpos negros estão sujeitos, no ramo do espetáculo.

"Particularmente os corpos das mulheres negras", concordaram as três criadoras, numa conversa com a imprensa, após um dos últimos ensaios antes da estreia na Sala Estúdio do Teatro Nacional D. Maria II (TNDMII), em setembro do ano passado.

Para as autoras, o acesso à construção das narrativas é constantemente negado aos atores negros, normalmente relegados para papéis estereotipados que vão ao encontro de uma construção previamente concebida e que se estende também ao meio audiovisual.

"Tem de existir mais diversidade quando se forma uma equipa, porque são pessoas que trazem outra sensibilidade, outras histórias. Porque, normalmente, o pensamento de quem escreve é condicionado à partida", assumiu Cleo Tavares.

A atriz recordava que no meio artístico é "constantemente debatida pela cor da pele", uma ideia à qual Isabél Zuaa acrescentou que normalmente o negro, em palco, representa todos os negros, enquanto "o branco não representa todos os brancos".

A invisibilidade dos corpos negros, porém, não 'morre' nos palcos, antes se estende por toda a sociedade portuguesa em pormenores como a dificuldade de aceitação das línguas nativas.

Por isso, em "Aurora Negra" estão em cena três mulheres que falam crioulo, tchokwe e português, "na condição de estrangeiras", num país "onde são faladas essas três línguas".

O objetivo de algumas cenas onde as personagens trocam impressões nessas línguas é, precisamente, 'obrigar' o espectador a, "de repente, estar nesse lugar de estrangeiro", explicou Nádia Yracema, numa ideia corroborada por Isabél Zuaa, no encontro com a imprensa, que antecedeu a estreia da obra, em setembro do ano passado.

"Essa questão tem a ver com as nossas línguas de origem e, de alguma forma, poder colocá-las aqui enquanto guardiãs de pequenos segredos. Aquilo que queremos que todos percebam, no geral, é isso, de as pessoas se sentirem estrangeiras no seu próprio país, como muitos se sentiram estrangeiros no seu próprio país onde a língua oficial é o português", explicou Zuaa.

E foi, precisamente, com o regresso de Isabél Zuaa, do Brasil, que "Aurora Negra" começou a ganhar forma, "há cerca de quatro anos", quando a atriz revelou o desejo de juntar as três criadoras e protagonistas da peça.

"A Isabél [Zuaa] lançou a proposta para a mesa e começámos a trabalhar nela. Fomos esperando e concorrendo a apoios, e agora recebemos a Bolsa [Amélia Rey Colaço] e conseguimos colocá-la em palco", revelou a atriz.

O prémio destinado a apoiar a produção de espetáculos de jovens artistas e companhias emergentes, foi um 'empurrão' para uma ideia que, caso contrário, provavelmente acabaria por conhecer a luz do dia "noutros moldes", de acordo com Nádia Yracema, mas desta forma permitiu às autoras "ir mais além e acrescentar mais coisas", como explicou Cleo Tavares.

"A Bolsa [Amélia Rey Colaço] possibilitou-nos ir mais além. Quando tens esse suporte financeiro, dá-te tempo para experimentar mais coisas, deu-nos esse conforto de poder ser criadoras e experimentar várias coisas", acrescentou Cleo.

A Bolsa Amélia Rey Colaço, no valor de 22 mil euros, atribuída a "Aurora Negra" na sua segunda edição, é uma iniciativa do Teatro Nacional D. Maria II, em Lisboa. Foi criada em 2018 e destina-se "a apoiar a produção de espetáculos de jovens artistas e companhias emergentes, promovendo a renovação da criação teatral portuguesa".

O prémio, em homenagem ao papel pioneiro da atriz e encenadora que lhe dá o nome, resulta de uma associação do TNDMII com o Centro Cultural Vila Flor (CCVF), em Guimarães, O Espaço do Tempo, em Montemor-o-Novo, o Teatro Viriato, em Viseu, palcos onde "Aurora Negra" também foi apresentada, com apoio Alkantara e da Casa Independente.

A peça regressa à sala estúdio do TNDMII a partir de hoje, onde fica em cena até ao próximo dia 20. Neste dia, a sessão terá interpretação em Língua Gestual Portuguesa e audiodescrição.

"Aurora Negra" tem criação, direção artística e interpretação Cleo Diára, Isabél Zuaa e Nádia Yracema, cenografia de Tony Cassanelli, figurinos de José Capela, conceção de figurinos de Maria dos Prazeres e Marina Tabuado, direção técnica, desenho de luz e mapeamento de vídeo de Felipe Drehmer, composição original e sonoplastia de Carolina Varela e Yaw Tembe, desenho de som de João Santos dos Tuff Estúdios, adereços e 'styling' de Eloisa d'Ascensão e Jorge Carvalhal, apoio à dramaturgia de Sara Fonseca da Graça e de Teresa Coutinho, apoio ao movimento de Bruno Huca, apoio à pesquisa de Melánie Petremont, apoio à criação de Bruno Huca e Inês Vaz, direção de produção de Maria Tsukamoto, assistência de produção de Filipa Garcez.

De 20 de junho a 20 de julho, "Aurora Negra" estará disponível na plataforma PT.21, para um público internacional de especialistas e programadores.

O programa de sala está disponível no site.