Cultura

Sessão de Cinema: “Um Adeus Português”

Opinião

Fernando Heitor e Cristina Hauser — memórias do Portugal de 1985

Na história do cinema português, este filme de João Botelho, lançado em 1985, é um dos primeiros a abordar as memórias da Guerra Colonial.

Assim começa o poema “Um Adeus Português”, de Alexandre O’Neill: “Nos teus olhos altamente perigosos / vigora ainda o mais rigoroso amor / a luz de ombros puros e a sombra / de uma angústia já purificada”. Foi este poema que serviu de inspiração ao filme homónimo de João Botelho, lançado em 1985 — nele se refere “esta pequena dor à portuguesa / tão mansa quanto vegetal”, que serve de mote ao filme.

Quase quatro décadas depois, vale a pena lembrar que “Um Adeus Português” foi um dos primeiros títulos da ficção cinematográfica portuguesa a tratar, com especial delicadeza e emoção, as memórias da Guerra Colonial. Tudo acontece, aliás, num ziguezague dramático entre um episódio da guerra, em que morre um soldado, e as memórias da sua família, vividas e partilhadas cerca de uma década mais tarde — ziguezague que as próprias imagens sublinham, oscilando entre o preto e branco do passado e as cores do presente.

Escrito por Leonor Pinhão e João Botelho, o filme funciona como um painel de várias gerações confrontadas com os traumas da guerra. Não admira, por isso, que o próprio elenco reflicta essa diversidade de idades e experiências de vida. Nele encontramos, assim, entre outros, Isabel de Castro, Fernando Heitor, Ruy Furtado, Cristina Hauser, João Perry, Henrique Viana, e ainda Maria Cabral.

Sobre Maria Cabral (1941-2017), vale a pena recordar que ela foi uma imagem breve, mas fulgurante, na paisagem do moderno cinema português — revelada em “O Cerco” (1970), de António da Cunha Telles, teve o seu derradeiro papel, precisamente, em “Um Adeus Português”.

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