Cultura

Cannes também está online

Opinião

Spike Lee é o presidente do júri oficial da 74ª edição de Cannes

A 74ª edição do Festival de Cannes arranca com “Annette”, de Leos Carax, apostando numa organização em que as componentes online desempenham um papel determinante.

Se dúvidas ainda houvesse sobre as componentes virtuais dos chamados grandes eventos culturais, aí está o Festival de Cannes a mostrar e demonstrar que não há razão para demonizarmos as vantagens dos circuitos da Internet. Assim, para a sua 74ª edição (6-17 julho), este emblema artístico e mediático da Côte d’Azur — com um cartaz dominado pela imagem de Spike Lee, presidente do júri oficial — apostou num sofisticado aparato para gerir a afluência de espectadores às salas.

Não se trata exactamente de uma novidade, uma vez que, entre os grandes certames da Europa, Veneza também já pôs em prática uma estratégia semelhante. A saber: não é possível aceder a nenhuma sessão do festival (incluindo as secções paralelas, como a Quinzena dos Realizadores e a Semana da Crítica), a não ser através de um bilhete electrónico solicitado online. Entretanto, como é sabido já há mais de dois meses, “Annette”, de Leos Carax, com Marion Cotillard e Adam Driver, terá honras de abertura oficial [trailer].

Estamos, assim, perante um compromisso pleno de significado: por um lado, depois da interrupção de 2020, o festival volta a existir como um fenómeno indissociável de um público numeroso (o Grande Auditório Lumière, a maior sala de Cannes, tem mais de 2000 lugares); por outro lado, todas as vertentes do seu funcionamento passam pela Internet.

Um sintoma sugestivo desta evolução é, nos dias que antecedem o início do festival, a possibilidade de vermos no site do festival, de forma inteiramente gratuita, dois documentários (de cerca de 60 minutos, cada): “Olivia de Havilland, l’Insoumise”, de Daphné Baiwir, evocando uma das grandes damas do classicismo de Hollywood, e “Morceaux de Cannes”, de Emmanuel Barnault, antologia de momentos emblemáticos do certame organizada a partir dos imensos e riquíssimos arquivos do INA (Institut National de l’Audiovisuel). Neste último podemos descobrir algumas cenas breves, mas deliciosas, com personalidades tão diversas como Françoise Dorléac, Alfred Hitchcock, Jean-Luc Godard, Kirk Douglas ou, em amena brincadeira com os jornalistas, Peter Ustinov.

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