Cultura

Sessão de Cinema: “Os Amantes da Ponte Nova”

Opinião

Denis Lavant e Juliette Binoche: uma epopeia de emoções vivida na Pont Neuf, em Paris

Leos Carax foi, este ano, o autor em destaque na abertura oficial do Festival de Cannes — vale a pena revisitar uma das suas primeiras longas-metragens.

Eis um facto pouco comum que merece ser saudado: o filme “Annette”, de Leos Carax, que serviu na terça-feira de abertura oficial do 74º Festival de Cannes chega, dois dias depois, às salas portuguesas.

Daí este paralelismo. Há, de facto, uma energia lírica em “Annette” que ecoa várias componentes do universo de Carax, em particular do emblemático “Os Amantes da Ponte Nova”, lançado em 1991 — pois bem, esse é um dos títulos que o streaming nos permite descobrir ou reencontrar.

Tal como acontece agora em “Annette”, no centro do filme encontramos um homem e uma mulher assombrados pelas tragédias consumadas ou pressentidas da sua existência. Michèle é uma pintora que abandona a sua vida de bem estar para conhecer (e pintar) cenas de rua; Alex vive de breves performances circenses, mas a sua existência está marcada pela crescente dependência do álcool e também de sedativos.

A partir daqui, Carax filma aquilo que talvez possamos definir como o reverso de uma epopeia romântica. Refugiados na Ponte Nova de Paris (a Pont Neuf é a mais antiga da cidade), são duas figuras erráticas que protagonizam um amor impossível. De tal modo que o seu dia a dia vai-se decompondo de formas tão dramáticas quanto comoventes.

Carax investe muito nos seus actores e, de facto, as composições de Denis Lavant e Juliette Binoche (Alex e Michèle) são trabalhos de invulgar energia física e subtileza emocional. Para Binoche, em particular, este foi um momento importante de consolidação da carreira, ela que, também sob a direcção de Carax, já tinha surgido em “Má Raça” (1986).

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