Cultura

A força simbólica da Palma de Ouro de Cannes

Opinião

Imagem de "Titane", entre tradição e experimentação

Com a vitória de “Titane”, de Julia Ducournau, o Festival de Cannes consagrou uma experiência realmente inovadora que, afinal, coexistiu com algumas belas narrativas mais clássicas.

O filme que ganhou a Palma de Ouro do 74º Festival de Cannes — Titane, de Julia Ducournau — começa por colocar em cena uma criança que, devido às suas brincadeiras, provoca um acidente no automóvel em que viaja com o pai. Violentamente ferida na cabeça, a criança vai passar a viver com uma placa de titânio na cabeça. Reencontramo-la, já mulher, com um corpo em que não circula sangue, mas óleo de automóveis…

É fácil supor que estamos perante variações modernas de uma certa tradição (“corporal”, precisamente) do cinema de terror. De qualquer modo, Ducournau, que gosta de citar David Cronenberg como um dos seus mestres, está longe de ter realizado um típico filme de género. Podemos mesmo dizer que, ao distinguir “Titane”, o júri presidido por Spike Lee apostou na celebração de um cinema em que se cruzam tradição e experimentação, drama clássico e tragédia em formato de teledisco.

Cannes foi, uma vez mais, um palco de impressionante e fascinante diversidade. Se “Titane” pode simbolizar um cinema apostado em explorar até ao limite as novas linguagens (que vão da instalação artística aos videoclips), outros filmes lembraram-nos as renovadas possibilidades de formas narrativas mais clássicas, nomeadamente na abordagem de universos de raiz familiar.

Nesta perspectiva, filmes como “Tre Piani”, uma crónica de Nanni Moretti sobre os habitantes de um prédio de três andares em Roma, ou “Les Olympiades”, com Jacques Audiard a fazer o retrato de uma zona específica de Paris, deixaram a certeza de que não há linguagens mais “puras” ou “impuras” para o tratamento do quotidiano. Pode mesmo dizer-se que este foi um certame capaz de fazer coabitar o realismo mais estrito com o puro artifício do espectáculo — a esse propósito, convém não esquecer que “Annette”, o título de abertura do festival assinado por Leos Carax, é um musical.