Cultura

Sessão de Cinema: “Gran Torino”

OPINIÃO

Clint Eastwood em "Grand Torino": actor & realizador

Na filmografia de Clint Eastwood na dupla condição de actor/realizador, este é um dos dramas mais elaborados e socialmente mais complexos.

Agora que chega às salas escuras o filme “Cry Macho - A Redenção”, de Clint Eastwood, vale a pena recordar um caso exemplar do seu trabalho enquanto actor/realizador: “Gran Torino” (2008). Aliás, com uma coincidência curiosa: Nick Schenk, o argumentista que refez o script de “Cry Macho” (o projecto existia desde meados da década de 1970), é também o responsável pelo argumento de “Gran Torino”.

Se é verdade que a “persona” cinematográfica de Eastwood se define a partir da dimensão solitária das suas personagens, então não há dúvida que “Gran Torino” será um dos exemplos mais elaborados da sua dramaturgia. Encontramo-lo, assim, a assumir a personagem de Walt Kowalski, veterano da guerra da Coreia que vive num bairro cujos habitantes são maioritariamente de origem Hmong (descendentes de refugiados do Laos que abandonaram o país depois da tomada do poder pelos comunistas, em 1975).

Toda a tensão do filme nasce do roubo do automóvel de Kowalski, um Gran Torino (lendário modelo da Ford, lançado em 1972). Subitamente, ele que tenta manter a sua existência desligada dos vizinhos vai ser confrontado com a complexidade de um tecido social em que a noção de “grupo” tanto pode funcionar como factor de agregação e, noutros casos, como motor de conflito.

Incluído pelo American Film Institute no seu Top 10 de filmes marcantes de 2008, “Gran Torino” é um caso exemplar de observação da complexidade demográfica da sociedade dos EUA. Acima de tudo, Eastwood sabe lidar com essa complexidade através de um dispositivo dramático que liberta cada personagem de qualquer cliché psicológico ou moral. Realizado logo após “Million Dollar Baby”, “Gran Torino” inaugurou um grande interregno de Eastwood como actor dentro da sua própria filmografia como realizador. Ou seja: só voltaria a surgir no elenco de uma das suas realizações dez anos mais tarde, em “Correio de Droga”.

HBO