Cultura

Sessão de Cinema: “Longe do Paraíso”

Opinião

Julianne Moore em "Longe do Paraíso", prémio de interpretação no Festival de Veneza de 2002

Cineasta muito versátil, Todd Haynes teve uma notável incursão no registo melodramático com “Longe do Paraíso” — no seu centro está uma brilhante interpretação de Julianne Moore. HBO.

Está a chegar aos circuitos de streaming o documentário “The Velvet Underground”, de Todd Haynes, um dos títulos maiores que este ano foram vistos em Cannes (extra-competição). Esta é, por isso, uma boa altura para vermos ou revermos “Longe do Paraíso” (título original: Far from Heaven), outro admirável exemplo da versatilidade temática e criativa deste realizador americano.

Trata-se, neste caso, de mergulhar na América profunda da década de 1950 para fazer o retrato de uma senhora dos subúrbios de Connecticut. A sua existência vai ser abalada por dois factores que, em tudo e por tudo, colidem com as regras do meio conservador em que vive: por um lado, o marido é presença regular nos bares maioritariamente frequentados por homossexuais; por outro lado, ela começa a estabelecer uma relação com o seu jardineiro, um homem de pele negra…

Encenado à maneira, precisamente, de um melodrama dos anos 50, “Longe do Paraíso” homenageia esse cinema, ao mesmo tempo explicitando aquilo que nos respectivos filmes seria, quando muito, assunto de discreta alusão. Aliás, o próprio Todd Haynes assume que o seu filme se inspira muito directamente nas ambiências melodramáticas de Douglas Sirk (1897-1987), autor, por exemplo, do clássico “Escrito no Vento” (1956).

Julianne Moore tem, aqui, uma das mais extraordinárias composições da sua carreira, à frente de um elenco que inclui os nomes de Dennis Quaid (o marido) e Dennis Haysbert (o jardineiro). “Longe do Paraíso” teve quatro nomeações para os Óscares referentes a 2002, mas não obteve qualquer estatueta dourada; no Festival de Veneza desse ano, Julianne Moore arrebatou o prémio de melhor actriz.