Cultura

“Ary”, a viagem de uma pessoa ‘trans’ à procura da sua identidade

“Ary”, a viagem de uma pessoa ‘trans’ à procura da sua identidade

Antestreia do filme está marcada para quarta-feira na Cinemateca.

Ary é uma pessoa ‘trans’ que não se identifica com nenhum género e a viagem interna de redescoberta da sua identidade está documentada no filme com o mesmo nome, que estreia na quarta-feira e procura criar conexão e empatia.

A longa-metragem é o trabalho de estreia da realizadora Daniela Guerra, que, em entrevista à agência Lusa, explicou como a realidade das pessoas ‘trans’ sempre a cativou e a inevitabilidade de esse ser o tema do seu primeiro trabalho.

“Eu sempre tive uma ligação empática e uma conexão muito grande com estas histórias porque sempre me causou uma certa revolta como é que nós enquanto seres humanos olhamos para o outro e em vez de vermos a ligação entre nós e sermos empáticos depois construímos sociedades que marginalizam”, explicou, sublinhando que sempre viu filmes sobre a temática ‘trans’.

Daniela Guerra apontou que o problema do preconceito sempre a incomodou e que assim que teve oportunidade de fazer um filme, no caso no âmbito do curso que estava a tirar, “era óbvio que tinha de contar uma história ‘trans'”.

“Um pedaço da vida de Ary”

Falou com um amigo que tinha amigos ‘trans’ e dessa forma chegou a Ary, que não conhecia e com quem, por isso, começou do zero a construir uma relação, e que acompanhou durante cerca de três anos, entre 2017 e 2019, no seu processo de questionamento e de redescoberta de identidade, uma vez que Ary não se reconhece na classificação binária de género.

Daniela pôs em película “um pedaço da vida de Ary”, que acompanhou entre a fase de início da transição e a realização da mastectomia, uma cirurgia para a remoção total das mamas, uma vez que, à nascença, atribuíram a Ary o género feminino.

“É uma viagem em que me fui conhecendo, é uma busca por mim. Essa busca é uma coisa que se busca para sempre, pelo menos para mim, estou sempre numa busca constante de me entender”, disse Ary Zara à Lusa, sublinhando que essa procura constante de respostas é uma característica que o acompanha “desde sempre”.

De acordo com Ary, o questionamento relacionado com a sua identidade de género “começou oficialmente” aos 28, 29 anos, quando entendeu o que se estava a passar consigo.

“É sempre complicado perceber, cada pessoa ‘trans’ tem o seu caminho e narrativa, se calhar para algumas pessoas é tudo muito óbvio e automático, para mim não foi”, adiantou. “Comecei por dar atenção a um desconforto que tinha com o meu corpo e quanto mais atenção eu dava parece que maior esse desconforto se tornava, até que se tornou incontornável, eu tinha um grande desconforto com o meu peito e é por aí que começa a minha vontade de fazer uma transição”, acrescentou.

Recordou que começou por tentar mudar o corpo no ginásio, mas quando percebeu que não era mais possível ponderou avançar para uma mastectomia mesmo sem fazer qualquer tratamento hormonal ou ter acompanhamento psicológico.

“Comecei a estudar e a ler sobre género, encontrei este conceito de não binarismo de género e foi assim a primeira vez que comecei a sentir-me mais confortável com esta possibilidade de género não binário”, sublinhou.

“Antes era feliz, mas descobri que afinal havia mais”

A partir daí trilhou um caminho, em que “uma porta dá acesso a outra porta e acesso a outra”, em que vai conhecendo cada vez mais sobre si mesmo e deixa que “viesse à superfície” o que realmente queria fazer com o seu corpo sem que tivesse de ficar preso a um género, já que antes um dos seus receios era o de ficar preso ao género masculino.

“Começo a ganhar coragem para alterar o meu corpo sabendo que não tenho de ser um homem e foi isso que me permitiu avançar”, contou, acrescentando que começou por fazer terapia hormonal e passados dois anos fez a mastectomia e a mudança de nome e género no cartão de cidadão.

Com a remoção total do peito vivenciou “um grau de felicidade que não conhecia”.

“Antes era feliz, mas descobri que afinal havia mais e foi isso que eu descobri com a minha mastectomia, que havia mais, havia mais eu e me sentia mais feliz”.

“O impacto é sempre dar visibilidade e criar empatia em toda a gente pelo tema”

Para Ary, o filme de Daniela Guerra é um “documentário muito honesto”, sem filtros, em que passou “sem grandes floreios” o que estava a sentir e onde ficam presentes as suas dúvidas perante uma transição física, algo que entende que não é falado muitas vezes relativamente às pessoas ‘trans’.

Daniela sublinhou que o filme “acaba por ser uma viagem ao passado, num momento profundamente emocional da transição”, destacando que “o Ary hoje tem outras dimensões e é uma pessoa com muitas diferenças do Ary do passado”.

A realizadora gostava que o maior impacto do seu filme fosse o de criar uma conexão e empatia entre o espetador e a história, trazendo informação a quem está alheio desta realidade.

“O impacto é sempre dar visibilidade, dar uma outra representação de uma narrativa singular ‘trans’ e criar empatia em toda a gente pelo tema”, defendeu.

A antestreia do filme, uma produção independente e que não teve quaisquer apoios, está agendada para quarta-feira, dia 16, às 21h30, na Cinemateca.

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