Cultura

Ascensão e queda de “Westworld”

Fotograma de "Westworld", o filme de 1973 que deu origem à série lançada em 2016
Fotograma de "Westworld", o filme de 1973 que deu origem à série lançada em 2016

A série “Westworld” foi cancelada: a sua história e o seu impacto são indissociáveis de algumas preciosas memórias cinéfilas.

Há poucos dias (4 nov.), o mundo da televisão e do streaming foi abalado por uma notícia inesperada: a série “Westworld”, uma das referências centrais na programação da HBO, foi cancelada. Dito de outro modo: depois de quatro temporadas, a série criada pelo casal Jonathan Nolan/Lisa Joy não irá cumprir o seu programa inicial (que previa seis temporadas).

A razão nuclear para não se fazerem mais do que os 36 episódios existentes (todos disponíveis na HBO Max) é, de uma só vez, contundente e tradicional. A saber: a série foi tendo uma baixa regular de audiências — basta recordar que, nos EUA, alguns episódios das duas primeiras temporadas superaram os 2 milhões de espectadores, enquanto os da quarta ficaram todos abaixo dos 400.000. Sem esquecer, claro, os elevadíssimos custos de produção: 100 milhões de dólares para a primeira temporada e, segundo algumas fontes de Hollywood, mais de 160 milhões para a quarta.

Esta ascensão e queda de um projecto tão especial leva-nos a recordar as suas raízes cinematográficas. Desde logo, porque os seus criadores (incluindo J. J. Abrams, produtor executivo) definiram como regra primordial de “Westworld” a sua concepção eminentemente cinematográfica — do impacto visual à ousadia narrativa —, o que, além do mais, ajuda a explicar os custos. Mais do que isso: a série “Westworld” baseou-se num filme que, de facto, ocupa um lugar central na evolução temática e técnica da indústria do audiovisual.

Falamos, claro, do filme “Westworld” (1973), escrito e dirigido por Michael Crichton (1942-2008) — está também disponível na HBO Max, com o título “O Mundo do Oeste” (o trailer do filme, aqui em baixo, foi mesmo concebido para os consumidores da HBO Max). Crichton distinguiu-se também através de vários romances de ficção científica adaptados ao cinema, mas só se terá tornado um nome genuinamente popular a partir de 1993, quando Steven Spielberg adaptou o seu “Parque Jurássico” (publicado três anos antes). Como se prova, a obsessão pelo confronto do género humano com “entidades” geradas pela tecnologia marca, desde o princípio, o seu trabalho — a esse propósito, vale a pena recordar que, entre os filmes que realizou, se inclui o perturbante “Coma” (1978), com Michael Douglas e Geneviève Bujold, neste caso a partir de um romance de Robin Cook.

“Westworld”, o filme e a série, apresenta-nos uma derivação dramática do conceito de “parque temático”. Dito de forma simples: o “mundo” a que o título se refere é um espaço autónomo, fabricado e gerido para que os visitantes coexistam com “robots” hiper-realistas que “interpretam” situações tradicionais dos filmes do Oeste americano… Acontece que a sofisticação desses “robots” os leva a questionar o poder dos próprios humanos que os conceberam…

O filme de Crichton, protagonizado por Yul Brynner, Richard Benjamin e James Brolin, foi um momento marcante na evolução dos modernos efeitos especiais, ao mesmo tempo que relançava toda uma temática clássica da ficção científica, discutindo as relações entre os homens e as máquinas.

O seu “prolongamento”, em formato de série, para os nossos ecrãs caseiros é revelador de uma lógica de produção, de uma só vez industrial e artística: sectores importantes da actual oferta televisiva (incluindo, claro, o streaming) são variações sobre histórias, géneros ou modelos com raízes cinematográficas. O cancelamento da série “Westworld” é um acontecimento sintomático da importância, e também da vulnerabilidade, dessa lógica.

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