Cultura

Jean-Marie Straub (1933 - 2022)

Danièle Huillet e Jean-Marie Straub: uma obra seduzida pela escrita literária
Danièle Huillet e Jean-Marie Straub: uma obra seduzida pela escrita literária

A herança de Straub é um capítulo vital da história moderna do cinema: a sua filmografia, realizada com a mulher Danièle Huillet, desafia hábitos e convenções narrativas.

É bem provável que mesmo os espectadores de cinema que se interessaram por saber da notícia da morte do francês Jean-Marie Straub (dia 19, em Rolle, Suíça, contava 89 anos) não conheçam os seus filmes. A explicação é simples: a sua filmografia, indissociável do trabalho com a mulher Danièle Huillet (1936-2006), nunca teve os favores dos grandes circuitos de distribuição, tendo sido fortemente penalizada pela sua dimensão experimental e, sobretudo, pela obstinada pesquisa formal através de uma relação regular e, de algum modo, obsessiva com a escrita literária.

Além do mais, trabalhando quase sempre com intérpretes não profissionais, os filmes de Straub/Huillet também nunca tiveram "estrelas" para ajudar à sua promoção. O certo é que não é possível conhecer a história da modernidade cinematográfica sem, de uma maneira ou de outra, passar pela obra do casal.

É caso para dizer que as "vedetas" dos seus filmes foram nomes bem diferentes do habitual. Quais? Pois bem, desde logo Johann Sebastian Bach, através do título que os projectou nos circuitos artísticos internacionais: "A Pequena Crónica de Ana Madalena Bach" (1968), uma revisitação do compositor através das memórias contidas nas cartas de sua mulher — recordamos o respectivo trailer aqui em baixo. Ou ainda, por exemplo, Cesare Pavese, Franz Kafka e Elio Vittorini, revisitados, respectivamente, em "Da Nuvem à Resistência" (1979), "América, Relações de Classes" (1984) e "Sicília" (1999).

O que encontramos em tais filmes são variações sobre as obras que lhes servem de inspiração, em tudo e por tudo diferentes dos conceitos tradicionais de "adaptação". Para Straub, as convulsões da história humana — em particular as suas dramáticas clivagens políticas e ideológicas — passavam sempre pelo valor primordial da palavra. O rigor desse trabalho pode ser conhecido através do documentário que Pedro Costa sobre eles realizou — chama-se "Onde Jaz o Teu Sorriso?" (2001) e pode ser definido como um acompanhamento, de uma só vez íntimo e didáctico, do trabalho de montagem de "Sicília".

Tendo em conta a actual proliferação dos circuitos de difusão do cinema, vale a pena formular um voto cinéfilo: esperemos que seja possível começar a rever (ou descobrir) os filmes com que Jean-Marie Straub e Danièle Huillet construíram um mundo fascinante, autónomo e intransigente, na paisagem multifacetada do cinema moderno.

Últimas Notícias
Mais Vistos