Desporto

O mundo nas cores da ginástica

Um retrato da 16.ª Gymnaestrada em Dornbirn, Áustria, com mais de 1100 ginastas portugueses.

Com as montanhas tirolesas a desenhar o horizonte e quando o Reno se faz ao espelho do Bodensee, ou Lago de Constança, aí fica Dornbirn, a sul de Bregenz, no estado austríaco de Vorarlberg.

Mais de 18 mil ginastas oriundos de 65 países enchem esta semana a localidade para Gymnaestrada mundial, o maior festival de ginástica, que é também o maior evento desportivo do mundo em número de participantes, tendo este ano o lema “Come together, show your colors!”. A «invasão» altera a rotina da cidade, que tem menos de 50 mil habitantes. Por estes dias, restaurantes, hotéis e bares enchem, lojas de recordações fazem novas encomendas, museus e atrações turísticas têm filas.

Centro de Congressos de Dornbirn, Gymnaestrada 2019

Centro de Congressos de Dornbirn, Gymnaestrada 2019

A Gymnaestrada realiza-se de quatro em quatro anos, arrastando multidões de ginastas dos cinco continentes durante uma semana. Há atletas de competição de várias disciplinas gímnicas, mas este é um evento da chamada Ginástica para Todos (GpT). Junta ginastas de todas as idades, com demonstrações de grupo em pavilhão, estádio ou palcos ao ar livre. O conceito foi inventado por um holandês, que pensou em levar a ginástica para a rua, daí o nome Gymnaestrada – Gymna remete para a modalidade e strada para “caminho” ou “rua”.

A ideia, explica a Federação Internacional de Ginástica, é ter apresentações, trocar informações, partilhar experiências e discutir a modalidade na sua vertente não competitiva.

Estádio Birkenwiese, Dornbirn, Áustria - Abertura Gymnaestrada 2019

Estádio Birkenwiese, Dornbirn, Áustria - Abertura Gymnaestrada 2019

Estádio Birkenwiese, Dornbirn, Áustria - Abertura Gymnaestrada 2019

Estádio Birkenwiese, Dornbirn, Áustria - Abertura Gymnaestrada 2019

Estádio Birkenwiese, Dornbirn, Áustria - Abertura Gymnaestrada 2019

Estádio Birkenwiese, Dornbirn, Áustria - Abertura Gymnaestrada 2019

“Aqui a competição é informal, para saber quem tem o melhor sorriso, o melhor fato, o melhor espetáculo…”, esclarece Rogério Valério, técnico da Federação Internacional de Ginástica para a disciplina de Ginástica para Todos. Os ginastas representam os respetivos países pelo “prazer” de praticar a modalidade.

“Quem se desloca a outro país para dormir uma semana no chão de uma escola, andar quilómetros a pé e ainda dar o melhor nas exibições, tem de gostar do ambiente” proporcionado pela Gymnaestrada, deduz Teresa Loureiro, vice-presidente da Federação de Ginástica de Portugal (FGP) e chefe da delegação portuguesa, que propõe “estudar este fenómeno” de mobilização desportiva.

Cerimónia de abertura da Gymnaestrada 2019 - Delegação portuguesa

Cerimónia de abertura da Gymnaestrada 2019 - Delegação portuguesa

@photosbybecas

Alguns destes grupos de GpT têm desenvolvido uma elevada performance, sendo aclamados em concursos televisivos de talentos. A Federação Internacional de Ginástica desenvolveu outro evento – Gym for Life – onde esta criatividade é mesmo colocada em competição para eleger as melhores classes de ginástica de demonstração do mundo. Lisboa organiza o próximo Gym for Life internacional em 2021.

Cerimónia de abertura da Gymnaestrada 2019 - Delegação portuguesa

Cerimónia de abertura da Gymnaestrada 2019 - Delegação portuguesa

Portugal tem a quarta maior comitiva na Gymnaestrada de Dornbirn, só atrás da Alemanha, da Suíça e da Finlândia. Faz-se representar por 21 clubes – AEFD S. Pedro do Sul, Agrupamento de Escolas de Vouzela, Amadora Gimno Clube, AA Coimbra, Boavista Futebol Clube, CCRAM, CRF, AIRFA, CSSPF, IFCT, CD Esc. Sec. Miguel Torga, Clube Atlético de Alvalade, Clube de Atletismo Amigos de Belém, Clube de Ginástica de Almada, Colégio Moderno, Ginásio Clube Português, Hóquei Clube da Lourinhã, Lisboa Ginásio Clube, Louletano Desportos Clube, Real Sport Clube, Sport Algés e Dafundo, Sport Lisboa e Benfica, Sporting Clube de Portugal e Sporting Clube de Torres – com mais de 1100 ginastas distribuídos por 32 grupos de exibição, incluindo os chamados Blocos, escolhidos por um júri em concurso nacional.

Os Blocos têm cerca de 15 minutos de atuação, transformando a ginástica num espetáculo, com diversos estilos e disciplinas que juntam de forma criativa vários esquemas gímnicos sob um tema inspirador.

Cerimónia de abertura da Gymnaestrada 2019 - Delegação portuguesa

Cerimónia de abertura da Gymnaestrada 2019 - Delegação portuguesa

@photosbybecas

O complexo de Dornbirn onde os Blocos se exibem é nestes dias uma espécie de cidade da ginástica, com milhares de atletas e espetadores a circular entre oito pavilhões onde se fazem apresentações contínuas. Os programas distribuídos identificam o país e apresentam uma síntese das características de cada Bloco. Os grupos japoneses, nórdicos e também os portugueses são os mais procurados.

Ginastas de diferentes países em confraternização na Gymnastrada 2019

Ginastas de diferentes países em confraternização na Gymnastrada 2019

“Obrigado Portugal, por este maravilhoso espetáculo”

Com mais de 280 ginastas, o Sporting Clube de Portugal tem o maior número de participantes da delegação portuguesa. No final da exibição de um Bloco do Sporting com 88 ginastas, numa performance inspirada na música e imagem dos Queen, juntando acrobática, teamgym e dança, o delegado de um país nórdico dirigiu-se ao representante do clube português para agradecer o momento: “Obrigado Portugal, por este maravilhoso espetáculo”. A chefe da delegação portuguesa viu também no pavilhão a “loucura com toda a gente a aplaudir espontaneamente de pé”.

“The colors of Queen”, Bloco SCP na Gymnaestrada 2019

“The colors of Queen”, Bloco SCP na Gymnaestrada 2019

“The colors of Queen”, Bloco SCP na Gymnaestrada 2019

“The colors of Queen”, Bloco SCP na Gymnaestrada 2019

@photosbybecas

“The colors of Queen”, Bloco SCP na Gymnaestrada 2019

“The colors of Queen”, Bloco SCP na Gymnaestrada 2019

“The colors of Queen”, Bloco SCP na Gymnaestrada 2019

“The colors of Queen”, Bloco SCP na Gymnaestrada 2019

Gabriel Fortes, executante neste Bloco do SCP e treinador num outro, sente “compensado o esforço enorme dos ginastas, que tiveram treinos extra nas últimas semanas” para participarem na Gymnaestrada: “sentimos o nosso trabalho reconhecido e isso é muito bom”.

“The colors of Queen”, Bloco SCP na Gymnaestrada 2019

“The colors of Queen”, Bloco SCP na Gymnaestrada 2019

@photosbybecas

“The colors of Queen”, Bloco SCP na Gymnaestrada 2019

“The colors of Queen”, Bloco SCP na Gymnaestrada 2019

“The colors of Queen”, Bloco SCP na Gymnaestrada 2019

“The colors of Queen”, Bloco SCP na Gymnaestrada 2019

A ginástica nacional, na disciplina de GpT, elevou as expectativas na Gymnaestrada. “Portugal é já uma referência no mundo da Ginástica para Todos”, diz a professora Vera Lobo, do Sporting Clube de Torres (SCT).

Num evento sem competição formal como a Gymnaestrada, é pela reação do público que se avaliam prestações. As outras delegações “vêem que somos de Portugal e querem saber quando atuamos e em que pavilhão”, diz a treinadora do clube de Torres Vedras que encontramos num passeio com as suas ginastas de acrobática em Lindau, cidade alemã vizinha de Dornbirn. Na marina da localidade banhada pelo Bodensee, as ginastas torreenses exibiram os dotes acrobáticos entre turistas e residentes. Esta interação dos ginastas com as pessoas, também com prestações gímnicas improvisadas e espontâneas, é outra das características da Gymnaestrada.

É a primeira participação deste grupo do SCT numa Gymnaestrada e “vai marcar para sempre as atletas”, antevê Vera Lobo.

Na delegação portuguesa, como na maioria dos casos, os ginastas assumem todos os custos da participação. “É um investimento dos próprios ginastas, famílias e clubes”. No caso do SCT foram organizados eventos para angariação de verbas. Carta de participação, estadia, transporte na cidade do evento e almoço, têm um custo superior a 600 euros. A viagem é também por conta dos participantes.

“A importância deste evento é a partilha da ginástica, de amizades, ver uma comunidade mundial de ginastas a fazer ginástica”, diz Rogério Valério, do Comité de GpT da Federação Internacional de Ginástica (FIG). Não se faz apenas intercâmbio cultural, mas também técnico. “O nosso corpo é igual em todo o lado, mas um mesmo movimento pode ser interpretado de maneira diferente consoante a cultura” e a constatação dessas diferenças pode “desenvolver a criatividade”.

Ginastas do Brasil levaram também samba à Gymnaestrada 2019

Ginastas do Brasil levaram também samba à Gymnaestrada 2019

Catarina, ginasta do Amadora Gimno Clube, destaca precisamente as possibilidades de intercâmbio cultural e gímnico numa Gymnaestrada, pois “as culturas diferentes também se refletem nas exibições e é interessante ver como as diferenças culturais se refletem no praticável”. O “sorriso é muito importante”, mas “o grande elemento facilitador para a relação entre os ginastas é a própria ginástica”, acrescenta Hugo, participante do mesmo clube da região de Lisboa. “Já começamos a ter saudades desta e estamos já a pensar na próxima Gymnaestrada”, revela Catarina.

Para Ricardo Lima, diretor técnico de GpT na FGP, “não basta ver pela internet o que se passa noutras culturas gímnicas, aqui pode captar-se in loco o que se vai inovando na GpT”, permitindo depois “a troca de impressões e de ideias” para soltar a criatividade.

O professor Manuel Gomes, da Associação de Educação Física e desporto de S. Pedro do Sul, participa na Gymnaestrada vai para trinta anos e garante que, mais uma vez, regressa a Portugal “com ideias novas, pelos diferentes materiais apresentados em Dornbirn, com soluções e formas diferentes de fazer da ginástica um grande espetáculo”.

“We will rock you”, Bloco AGC na Gymnaestrada 2019

“We will rock you”, Bloco AGC na Gymnaestrada 2019

Gymnaestrada de novo em Portugal “talvez em 2027, mas é preciso o poder político querer”

A primeira Gymnastrada foi em 1953, em Roterdão. Esta é a 16ª edição. Dornbirn repete a organização, como sucedeu já com Berlim e vai voltar a acontecer dentro de quatro anos com Amesterdão.

Lisboa, que organizou a Gymnastrada de 2003, poderá também repetir? “Talvez em 2027, com o sucesso de há 16 anos e o crescimento da GpT em Portugal há uma grande vontade”, garante Teresa Loureiro. Mas para tal acontecer só “quando o poder político quiser, pois é preciso um compromisso para além do que é hoje politicamente correto”, avisa Rogério Valério. O técnico da FIG lembra que uma candidatura é feita com pelo menos cinco anos de antecedência, pelo que os compromissos financeiros a assumir logo nesse momento “ultrapassam os mandatos políticos”. É uma opção estratégica “de longo prazo” que implica a cidade candidata, o governo central, empresas e instituições.

A maior Gymnaestrada em número de participantes foi, até agora, a de Lisboa, com cerca de 25 mil ginastas. Teve palcos para exibições em vários concelhos da área metropolitana, tendo a FIL e o pavilhão Atlântico, no Parque das Nações, como espaço central, a praia e o sol como atrações suplementares. A Gymnaestrada de Lisboa é ainda considerada por muitos participantes a melhor de sempre.

À semelhança de outros grandes eventos desportivos, a decisão de atribuir a organização de uma Gymnaestrada é tomada com muita antecedência pela FIG. “A FGP pode querer, mas uma cidade e um país também têm de querer”, com todas as implicações e compromissos inerentes, reforça Rogério Valério.

Cidade de Dornbirn, exibições de rua na Gymnaestrada 2019

Cidade de Dornbirn, exibições de rua na Gymnaestrada 2019

“Este é o evento maior da Ginástica para Todos e todos os ginastas sonham, pelo menos uma vez na vida, participar numa Gymnastrada, fazer ginástica neste ambiente”, constata Ricardo Lima, pelo que voltar a organizar uma Gymnaestrada “devia ser um sonho” de todos os portugueses, defende o técnico da FGP. “É um evento que se paga e até é lucrativo”, apesar do elevado investimento inicial para formalizar a candidatura, que a FGP não está em condições de assumir sozinha.

E há ainda a possibilidade de imprevistos, como aconteceu precisamente em Dornbirn. Por causa da chuva intensa no primeiro dia, a cerimónia de abertura no estádio local teve de ser adiada. Acabou por realizar-se dois dias depois. O estádio encheu para ver as cores de todas as delegações no tradicional desfile e o espetáculo preparado durante meses por centenas de atletas austríacos. Algumas técnicas de movimentos e formação de grandes grupos em estádio foram criadas ou testadas na Gymnaestrada, antes de serem executadas nos Jogos Olímpicos.

Os dias da Gymnastrada terminam habitualmente com as galas nacionais de ginástica. A gala de Portugal conta com cerca de 900 ginastas e tem casa cheia.

Nas grandes demonstrações, como nas mais pequenas exibições de rua, fazem eco as palavras de Vítor, jovem atleta do Sporting: “além da ginástica, o importante é pôr um sorriso na cara das pessoas que nos vêem”.

Cidade de Dornbirn, exibições de rua na Gymnaestrada 2019

Cidade de Dornbirn, exibições de rua na Gymnaestrada 2019

Fotografias de Isabel Maroço e Elsa Franco