Desporto

"Falta jogar a fase crítica do campeonato (...) não é justo acabar assim”

Entrevista SIC Notícias

Pedro Sepúlveda

Pedro Sepúlveda

Jornalista/Produtor Editorial

Pedro Pereira, jogador do SL Benfica que está emprestado ao Bristol, concedeu uma entrevista à SIC Notícias onde fala de um possível regresso aos "encarnados" e do impacto da Covid-19 em Inglaterra.

  1. Como é que tem vivido toda esta situação do coronavírus longe da família e de Portugal?

É complicado. Estou longe da minha família e gostava de não só passar este tempo com eles, como sentir o apoio deles até ultrapassarmos esta fase. Se por um lado não posso fazer aquilo que mais gosto – jogar futebol – nem ter a minha rotina diária que sempre tive, por outro, também não posso aproveitar esta paragem, que acontece pela primeira vez na minha carreira, e espero que que seja a última vez, para aproveitar com eles. O mais importante é que estejamos todos bem e seguros em casa.

  1. O que é que mais o preocupa?

A minha maior preocupação é tempo que isto está, e ainda vai continuar a demorar a passar. Preocupa-me o tempo que vai demorar até ser encontrada uma vacina, medicamento… algo que ajude a controlar esta doença que ainda não tem cura. Pelo que vou lendo, estão a ser feitos esforços em todo o mundo para se encontrar uma solução para resolver este pesadelo o mais rápido possível. Até lá cabe-nos a nós fazer a nossa parte e seguir as regras.

  1. Sente que as pessoas se tiveram consciência do que realmente se estava a passar cedo ou tarde de mais?

No caso de Portugal julgo que as pessoas reagiram cedo e tiveram consciência da dimensão do problema. Aqui em Inglaterra, isso não aconteceu. A primeira abordagem do governo não foi a melhor e isso, infelizmente, pode refletir-se nos números de infetados e mortos causados pelo coronavírus. Aqui as coisas não estão fáceis.

  1. Considera que esta paragem prejudicou os jogadores?

Sim, acho que prejudicou. Esta altura é um momento crítico da temporada. Todos os jogos e minutos acumulados pelos jogadores começam a pesar em algumas equipas, há outras equipas que estavam atingir a melhor fase da época depois de todos os meses iniciais, e de repente têm de parar não só a competição, como os treinos. Nesta fase final das competições, decide-se muita coisa, quem sobe, quem desce, o campeão… e esta paragem vai afetar essas decisões, beneficiando uns e prejudicando outros.

5. De forma é que o clube tem ajudado os jogadores, tanto a nível pessoal como profissional?

O clube tem ajudado bastante. Desde a parte física ao apoio emocional. Não tenho nada a apontar ao clube (Bristol). Têm sido incríveis, muito preocupados com os jogadores, sempre a apoiar-nos e a esclarecer as nossas dúvidas. Basicamente fazem-se sentir presentes todos os dias.

6. Os treinos já foram retomados?

Não, nem temos uma previsão de quando voltaremos a treinar.

7. Como é que passas o tempo em casa?

Criei uma rotina. Acordo de manhã para treinar e só volto a treinar ao final do dia. Tento manter-me ativo. No resto do tempo livre, mantenho a cabeça ocupada. Vejo muitos filmes e séries com a minha namorada, jogo playstation com os meus amigos; Vejo também muito jogos de futebol, tentar aprender com os meus erros e com outros jogadores; Leio muito agora, que era algo que não fazia tanto antes desta pandemia, arrisco-me a dizer até que tornou-se um hábito [risos].

  1. Como é que tem mantido a forma física?

Não tem sido fácil. Treinar sozinho não é a melhor coisa do mundo. É preciso ter muita disciplina e força de vontade. Tenho a sorte de ter profissionais comigo que me ajudam bastante. Treino com o Tomás, que é o meu ‘personal trainer’ de manhã. À tarde faço sessões de ‘mental coaching’, e agora estou a experimentar fazer sessões de respiração – algo que me tem ajudado muito a nível psicológico. Ao final do dia, treino com outro ‘personal trainer’ por videochamada, e desta forma estou a tentar manter a forma ao máximo.

  1. Temeu que a profissão estivesse em risco, numa altura que em se fala tanto de layoff e despedimentos?

Não. No Bristol sinto-me bastante seguro em relação a isso. É um clube bastante estável em termos financeiros… vai sentir esta crise claro, mas isso vão todos.

10. Seria justo terminar agora a competições e atribuir as atuais classificações aos clubes?

Não seria justo terminar os campeonatos assim. Há muita coisa para se disputar, muitos jogos para se jogar… seria injusto terminar tudo assim. Eu acho eu vale a pena esperar para terminar o campeonato, e a mudar-se algo, que seja na próxima época. Acho que se tivermos de jogar mais tarde ou fazer mais jogos durante a semana, em prol do fim deste campeonato, os clubes e os jogadores não se vão importar.

  1. Focando agora mais da sua carreira, este é o segundo empréstimo fora de Portugal, os planos passam por regressar e ter uma oportunidade no Benfica?

Neste momento, para ser sincero, não penso se vou ou não regressar ao Benfica. Estou muito focado no Bristol, sou muito feliz aqui. Quero ajudar o clube a atingir os objetivos. Quero atingir os objetivos pessoais que estabelecia para mim no início da época, jogar o máximo, aprender e evoluir com esta experiência. Jogar no estrangeiro é um passo importante para qualquer jogador. Temos acesso a experiência completamente diferentes das que temos quando jogamos em Portugal. Crescemos e aprendemos muito. Jogar fora dá-nos mais visibilidade e isso acaba por ser importante para a nossa carreira. Quando acabar esta época, logo se vê. Vou ter tempo para decidir e analisar o que é melhor para mim.

  1. Ir jogar para o estrangeiro, teve em visto a possibilidade de um dia representar a seleção nacional?

Claro que quero chegar à seleção principal. Neste momento represento a seleção sub-21, onde conseguimos alcançar o apuramento para o europeu de sub-21. É um orgulho para mim jogar pelo meus país e trabalho todos os dias com essa motivação extra de representar a nossa seleção, e espero um dia representar a seleção A.

  1. O que é que considera que o futebol pode aprender e retirar de toda esta situação?

Não é só o futebol. Acho que todos nós, enquanto cidadãos, devemos aprender algo com tudo isto. Há uns meses não dávamos tanto valor a determinadas coisas que agora estamos “obrigados” a não fazer. Quando tudo isto passar, não vamos olhar da mesma maneira para um simples abraço ou cumprimento… vamos dar mais valor à liberdade de fazermos aquilo que quisermos. Acho que vamos aproveitar mais e melhor todos os dias e momentos que a vida nos dá. Essa é a maior lição desta pandemia.

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