Desporto

Rui Costa assume a presidência do Benfica

JOSE COELHO

Depois de Luís Filipe Vieira ter suspendido funções no cargo.

O Benfica informou esta sexta-feira que Rui Costa assume, com efeitos imediatos, a presidência do clube, depois de Luís Filipe Vieira ter suspendido funções no cargo.

"O Sport Lisboa e Benfica informa que, nos termos que se encontram estatutariamente previstos e em virtude da comunicação realizada hoje pelo Presidente da Direção, Luís Filipe Vieira, o Vice-Presidente Rui Manuel César Costa, assume, com efeitos imediatos, a Presidência do Sport Lisboa e Benfica, nos termos da alínea a do número 3 do artigo 61 dos estatutos do Clube", pode ler-se no comunicado.

Luís Filipe Vieira suspendeu funções como presidente do Benfica esta sexta-feira, decisão que foi anunciada pelo advogado, em consequência de detenção no âmbito da operação "cartão vermelho".

"O Benfica está primeiro, perante os eventos dos últimos dias, no âmbito da operação 'cartão vermelho', em que sou diretamente visado, e enquanto o inquérito em curso puder constituir um fator de perturbação, suspendo, com efeitos imediatos, o exercício das minhas funções como presidente do Sport Lisboa e Benfica, bem como de todas as participadas do clube".

Milhões em prejuízos para o Estado

O empresário e presidente do Benfica Luís Filipe Vieira, de 72 anos, foi um dos quatro detidos na quarta-feira numa investigação que envolve negócios e financiamentos superiores a 100 milhões de euros, com prejuízos para o Estado e algumas sociedades.

Segundo o Departamento Central de Investigação e Ação Penal (DCIAP) estão em causa factos suscetíveis de configurar "crimes de abuso de confiança, burla qualificada, falsificação, fraude fiscal e branqueamento de capitais".

Para esta investigação foram cumpridos 44 mandados de busca a sociedades, residências, escritórios de advogados e uma instituição bancária em Lisboa, Torres Vedras e Braga. Um dos locais onde decorreram buscas foi a SAD do Benfica que, em comunicado, adiantou que não foi constituída arguida.

No mesmo processo foram também detidos Tiago Vieira, filho do presidente do Benfica, o agente de futebol Bruno Macedo e o empresário José António dos Santos, conhecido como "o rei dos frangos".

O "esquema ardiloso" de Vieira e do "Rei dos Frangos" que custou 45 milhões ao fundo de resolução

O Ministério Público diz que Luís Filipe Vieira, o filho e o sócio José António dos Santos – mais conhecido como "Rei dos Frangos" – prejudicaram o Estado e o Novo Banco em vários negócios. Num deles, o presidente do Benfica terá conseguido comprar a dívida que tinha no Novo Banco por um sexto do seu valor.

A Imosteps, uma sociedade que estava nas mãos de Luís Filipe Vieira, tinha uma dívida superior a 54 milhões de euros ao Novo Banco que foi dada como perdida. Lá dentro estava um património imobiliário valioso no Brasil, que o presidente do Benfica e o filho queriam recuperar.

Como não podia dar a cara pela compra da própria dívida, Vieira terá posto o amigo José António dos Santos à frente de um fundo de investimento que criou, mas o negócio foi recusado pelo fundo de resolução quando se percebeu a relação do empresário com o presidente do Benfica.

A dívida da Imosteps acabou vendida a um fundo abutre americano – que se dedica a liquidar empresas – mas Luís Filipe Vieira não desistiu. Foi criada uma nova empresa, também com dinheiro do "Rei dos Frangos", que comprou os créditos da Imosteps aos americanos por nove milhões de euros – um sexto do valor que a Imosteps devia ao Novo banco.

Grande parte das perdas geradas por este negócio – que somam 45 milhões de euros – foram assumidas pelos dinheiros públicos do fundo de resolução.

Vieira, que era sócio da Imosteps vendeu por um euro todas as ações ao amigo José António dos Santos, conseguindo ver-se livre da dívida à banca e ainda ver-lhe devolvidas as cinco livranças que tinha dado como garantia pessoal

Como Vieira e Bruno Macedo terão desviado 2,5 milhões do Benfica

Pelo menos 2,5 milhões de euros é quanto terá sido desviado do Benfica por Luís Filipe Vieira e pelo agente Bruno Macedo com o negócio de três jogadores: Derlis González, Cláudio Correa e César Martins.

No documento a que a SIC teve acesso, lê-se que os pagamentos foram feitos de forma "excessiva e indevida".

A AJUDA DO FILHO E DO ADVOGADO

O Ministério Público diz que para as operações financeiras, Vieira contou com o filho Tiago Vieira e Bruno Macedo. O advogado, natural de Braga, que tinha entrado no mundo do futebol através do Sporting de Braga, é suspeito de usar estruturas societárias para benefício próprio e de Vieira.

Em Portugal, terão sido usadas a BM Consulting e a Yes Sports. No estrangeiro, a Astro Sports Management, a Master International, a International Sports Fund e a Trade In, registadas nos Estados Unidos da América, nos Emirados Árabes Unidos e na Tunísia.

A Trade In, por exemplo, terá servido para desviar dos cofres do Benfica verbas relacionadas com a aquisição do jogador brasileiro César Martins.

Já a Master International terá sido usada para alocar as mais valias da venda de direitos económicos de dois outros jogadores: Derlis González e Cláudio Correa. Milhões de euros que deviam ter entrado nas contas do Benfica, o que nunca chegou a acontecer.

COMO FUNCIONAVA A ALEGADA REDE

Bruno Macedo disponibilizava as empresas e Vieira os meios financeiros do Benfica. Os dois terão acordado que o clube trataria da contratação e venda de jogadores através de Macedo que, assim, podia canalizar dinheiro para sociedades com o controlo direto ou indirecto de Vieira.

Por exemplo, em dezembro de 2015 e março de 2016, a sociedade Springlabyrinth de Bruno Macedo terá sido usada para receber 830 mil euros que vieram da International Sports Fund. Com esse dinheiro, a Springlabyrinth comprou imóveis de sociedades do grupo de Luís Filipe Vieira no Algarve, em Rio Maior, e em Santo António dos Cavaleiros.

Sociedades onde Tiago Vieira, o filho de Luís Filipe Vieira, é administrador e podia movimentar as contas de acordo com as indicações do pai.

Para além do Benfica, os alegados esquemas de fraude de Vieira envolvem também prejuízos ao ex-Grupo Espírito Santo, ao atual Novo Banco e ao Estado português.

Rui Costa torna-se presidente do Benfica após ter sido jogador e dirigente

Rui Costa assumiu a presidência do Benfica, clube que representou como futebolista, por cinco épocas, e no qual assumiu funções de dirigente desde 2008, depois de o presidente, Luís Filipe Vieira, comunicar a suspensão de funções.

Rui Costa vai assim liderar o emblema no qual cumpriu toda a formação de jogador, entre 1981 e 1990, e no qual se começou a evidenciar como sénior, entre 1991 e 1993, depois de um empréstimo ao então primodivisionário Fafe, na época 1990/91.

O ano de 1991 ficou gravado na sua carreira, já que coube ao então médio ofensivo de 19 anos marcar o penálti que deu a Portugal o segundo título mundial de sub-20, na final contra o Brasil (vitória por 4-2 no desempate por penáltis, após 0-0 nos 120 minutos), disputada perante 120 mil espetadores no antigo Estádio da Luz, a 30 de junho.

Após três temporadas em que venceu uma Taça de Portugal (1992/93) e um campeonato (1993/94) pelo Benfica, Rui Costa transferiu-se para a Fiorentina por cerca de três milhões de dólares - 2,5 milhões de euros sem contar com a inflação.

Juntamente com atletas como o guarda-redes Francesco Toldo e o avançado Gabriel Batistuta, o médio tornou-se uma referência do clube 'viola', tendo realizado 277 jogos oficiais e vencido duas Taças de Itália (1995/96 e 2000/01) e uma Supertaça (1996), em sete épocas.

Conhecido como 'maestro', Rui Costa jogou depois cinco temporadas pelo AC Milan, tendo-se sagrado vencedor da Taça de Itália e da Liga dos Campeões (2002/03), antes de vencer o campeonato (2003/04) e a Supertaça (2004).

O jogador regressou ao clube onde 'nasceu' para o futebol em 2006, tendo realizado 67 jogos pelos 'encarnados' nas duas últimas temporadas da carreira, marcadas por algumas lesões. A par do trajeto realizado na I Liga portuguesa e na 'série A' italana, Rui Costa marcou 26 golos em 94 jogos pela seleção portuguesa, tendo disputado a final do Euro2004, que a equipa então treinada por Luiz Felipe Scolari perdeu para a Grécia (1-0), no Estádio da Luz.

Mal terminou a carreira de futebolista, em maio de 2008, Rui Costa tornou-se diretor desportivo do clube e mais tarde assumiu as funções de administrador da SAD liderada por Luís Filipe Vieira, tendo-se mantido nesse cargo até agora.

Após as últimas eleições do clube, realizadas em 29 de outubro de 2020, que Luís Filipe Vieira venceu com 62,6% dos votos, contra os 34,7% do segundo candidato mais votado, João Noronha Lopes, o ex-jogador foi pela primeira vez eleito para os órgãos sociais e tornou-se vice-presidente das 'águias'.