Desporto

Maquilhar não é poupar

Opinião

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O futebol não precisa das maquilhagens de uns ou do infindável dinheiro de proveniências duvidosas de outros. Precisa, quanto antes, de uma banda gástrica.

É uma prática comum em Itália e que começa a fazer moda em Portugal. As trocas de jogadores, pelos mesmos valores, são uma técnica para melhorar os resultados operacionais dos clubes envolvidos. Não é ilegal, claro, mas é totalmente virtual. Dinheiro que não existe. Que não está lá. Que não passa da folha de excel. Mais não é do que empurrar os problemas para a frente, sem verdadeiro encaixe, e uma forma de contornar o Fair Play Financeiro da UEFA. Como uma gaveta bonita, bem decorada, de acabamentos caros, mas que apenas serve para guardar uma enorme soma de nada.

O caso mais recente envolveu Sporting e FC Porto. No último dia do mercado de transferências quase passou despercebida a notícia da troca de Rodrigo Fernandes, dos leões, com Marco Cruz, oriundo do FC Porto. Sabe-se agora que a mesma movimentou 22M€ (11M€ para cada lado). Não está em causa o potencial dos jovens jogadores. Até poderão vir a valer, em dinheiro real, verbas muito superiores. Mas os números apresentados mostram, no mínimo, alguma falta de decoro dos responsáveis de ambos os clubes.

Rodrigo Fernandes, com 20 anos, tem um valor de mercado a rondar os 800 mil euros. Já o seu colega de profissão, apenas com 17 anos, ainda nem sequer está cotado. Se cada um deles, realmente, tivesse movimentado 11M€, estariam entre os negócios mais elevados de leões e dragões no mercado de verão. Marco Cruz, aliás, teria sido a terceira contratação mais cara da história do Sporting, apenas ultrapassado por Paulinho (num bolo total de 16M€) e Bas Dost (11,8M€ em 2016).

Situação semelhante já tinha sido protagonizada entre FC Porto e Vitória. Dessa vez com dois jogadores da formação para cada lado numa operação total de 30M€. Pura maquilhagem. Uma vez mais, não é ilegal. Mas é feita daquele pó que acaba por sair rapidamente, deixando à vista todas as imperfeições do rosto financeiro dos clubes.

A culpa, diga-se, não será só destes. Começa na própria hipocrisia e desigualdade com que o Fair Play Financeiro é posto em prática. Clubes-estado como o Manchester City ou o PSG podem contornar as regras como bem entendem. Sem quaisquer consequências. Já existiram ameaças, claro. Deste e daquele virem a ser impedidos de participar nas provas da UEFA, por exemplo. Mas na hora da verdade nada acontece. Porque os fundos ilimitados que têm são fundamentais para alimentar a máquina, sustentar o mercado e provocar o tal efeito carrossel de que tantos outros precisam.

E assim vai o monstro. Sempre com fome. Sempre insaciável. Sempre a precisar de mais. Mais jogos, mais competições, mais direitos televisivos, mais publicidade, mais comissões, mais prémios de assinatura. Até rebentar. E, por este andar, não faltará muito. O futebol não precisa das maquilhagens de uns ou do infindável dinheiro de proveniências duvidosas de outros. Precisa, quanto antes, de uma banda gástrica.

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