40 Anos / 25 Abril

"Dura lex, sed lex"

O Jornal da Noite de domingo convida-o para uma viagem por oito diferentes profissões, antes e depois do dia 25 de Abril de 1974. Através do testemunho de um protagonista mostramos como era trabalhar antes da revolução, o que mudou logo a seguir e como se está hoje em cada uma das áreas que escolhemos. Este domingo é a vez de recuperarmos a memória de um tempo em que havia polícia política e documentação considerada subversiva.

Ainda há, em Portugal, quem consiga dizer de cor o juramento a que estavam obrigados todos os funcionários públicos, durante o Estado Novo: "Declaro, por minha honra, que estou integrado na ordem social estabelecida pela Constituição política de 1933, com activo repúdio do comunismo e de todas as ideias subversivas". Manuel Ratado, agente da Polícia de Segurança Pública (PSP) reformado, é um desses cidadãos. Viveu tanto tempo em ditadura como em democracia. Tem 80 anos.

Manuel Ratado fez a instrução no Porto e começou a trabalhar na 2ª Esquadra da PSP, na Rua do Arsenal, em Lisboa, no início de 1960. Pouco mais de um ano depois, foi colocado na seção da Covilhã, ao serviço da patrulha. Alternava com o de sinaleiro. O facto de estar a trabalhar na terra onde nasceu não diminuiu as dificuldades de fazer serviço na rua em pleno inverno rigoroso seguido de um verão escaldante, num ciclo que se repetia, ontem como hoje, ano após ano. Repetiam-se também os dias, numa cidade onde chegou a operar mais de uma centena de fábricas de lanifícios. Era junto às unidades fabris que Manuel Ratado encontrava "panfletos de cariz comunista". Folhas clandestinas que questionavam as políticas de Oliveira Salazar e que eram motivo suficiente para deter quem as escrevia e distribuía. Era essa a ordem que os agentes da PSP tinham, essa e a de recolher a chamada "propaganda subversiva" e enviá-la, tão rápido quanto possível, para a Polícia Internacional e de Defesa do Estado, PIDE. Manuel Ratado garante que nunca apanhou ninguém em flagrante e que falar mais sobre este assunto é entrar numa esfera política que já saía da competência da PSP. 

Quando o mundo português dá a volta por força de uma operação militar, Manuel Ratado estava de serviço na esquadra da Covilhã. Assegura que os acontecimentos não o apanharam de surpresa e que o maior problema a seguir foi garantir a paz e a segurança públicas em volta das fábricas. Os contratados queriam trabalhar, os piquetes de greve queriam convencê-los a lutar por melhores condições de trabalho, explica.

Homem de sorriso difícil, Manuel Ratado reconhece os ganhos de direitos, mas lamenta a perda de alguns valores que alimentavam o Estado Novo como o respeito. Não aceita que se chame medo à autoridade. Afinal, a polícia, diz, nunca foi um papão, a lei é que é dura, porém é a lei e é para cumprir.

Jornalista: Catarina Neves

Imagem: Humberto Candeias

Edição de imagem: Andrés Gutierrez

Grafismo: Isabel Cruz

Produção: Isabel Mendonça

Coordenação: Pedro Mourinho

Agradecimentos:

Ilfoto Covilhã

Ephemera Biblioteca e Arquivo de Pacheco Pereira

Torre do Tombo

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    O Jornal de Domingo convida-o para uma viagem por oito diferentes profissões, antes e depois do dia 25 de Abril de 1974. Através do testemunho de um protagonista mostramos como era trabalhar antes da revolução, o que mudou logo a seguir e como se está hoje em cada uma das áreas que escolhemos. Este domingo e com a ajuda de Mário Zambujal, entramos no mundo do jornalismo quando ainda havia censura prévia a tudo o que era publicado.