A menina ativista que desafia o Papa

A Terra em risco, o Mundo em procura

O papel das religiões na Casa Comum e o caso Genesis Butler

1. Laudato Sí – uma encíclica inspiradora?

Quando a jovem Genesis Butler cita a encíclica Laudato Sí e pede ao Papa que faça um jejum mais rigoroso na Quaresma, não constrói apenas – ela e todo o movimento que a acompanha nesta demanda – uma hábil chamada de atenção para o propósito que a move, mas reconhece que Francisco é já um protagonista essencial no debate sobre as questões ambientais.

Laudato Sí (LS) constituirá um dos mais ruidosos gritos políticos de um Papa na história recente, entendendo-se aqui a política no sentido mais nobre, que todos responsabiliza no exercício de uma cidadania pelo bem comum. É o primeiro documento de um Papa integralmente dedicado aos problemas ambientais e à ecologia.

Não se trata de um texto em circunstância aguda, nem apenas da resposta a uma crise eruptiva, mas do traçado para uma nova era. Como escreve Francisco, “apontar para outro estilo de vida”. E é neste aspeto radical da reflexão do Papa que Genesis encontra abertura para o ousado convite. Ela representa, afinal, um movimento que pretende a radicalidade de uma mudança de comportamento no consumo alimentar.

Com as alterações climáticas como eixo da reflexão, Francisco exalta na encíclica Laudato Sí a consciência humana para o respeito pelo meio. Sem o compromisso pela Casa Comum e pela defesa da Criação – forma judaico-cristã de interpretar natureza – não será nunca possível a justiça e a paz.

Na essência, o Papa salienta a ideia de uma dívida ecológica – entre os hemisférios norte e sul – e de uma ecologia integral. Não fica apenas por frases abertas com slogans mais ou menos assertivos. Propõe gestos concretos, individuais, como a reciclagem e poupança de água, mas vai muito mais além da responsabilidade pessoal. Recorrendo aos últimos estudos científicos sobre o clima, o chefe da Igreja católica chega a ir a pormenores do drama ecológico.

Se sublinha a ameaça sobre “organismos marinhos que não temos em consideração, como certas formas de plâncton que constituem um componente muito importante da cadeia alimentar marinha e de que dependem, em última instância, espécies que se utilizam para a alimentação humana” (40, LS), condena também a tentativa de “legitimar o modelo distributivo actual, no qual uma minoria se julga com o direito de consumir numa proporção que seria impossível generalizar, porque o planeta não poderia sequer conter os resíduos de tal consumo”, bem como a corrupção, admitindo “o desenvolvimento de controles mais eficientes e uma luta mais sincera contra a corrupção, que “cresceu a sensibilidade ecológica das populações”, mas advertindo que isto “é ainda insuficiente para mudar os hábitos nocivos de consumo, que não parecem diminuir, antes expandem-se e desenvolvem-se” (55, LS).

Além disso, acrescenta, “sabemos que se desperdiça aproximadamente um terço dos alimentos produzidos, e a comida que se desperdiça é como se fosse roubada da mesa do pobre” (50, LS). O Papa pede “atenção ao desequilíbrio na distribuição da população pelo território, tanto a nível nacional como a nível mundial, porque o aumento do consumo levaria a situações regionais complexas pelas combinações de problemas ligados à poluição ambiental, ao transporte, ao tratamento de resíduos, à perda de recursos, à qualidade de vida” (50, LS).

A preocupação com o estado da Casa Comum foi inscrita nos primeiros discursos do papa argentino. Acompanha o pontificado desde o início. Juntando-se a outras lideranças religiosas igualmente interventivas neste debate, como o Patriarca Ortodoxo de Constantinopola, Francisco tomou partido.

Não se estranhe que a encíclica Laudato Sí tenha sido encarada como uma declaração de guerra aos interesses instalados em volta da exploração de recursos naturais, assentes num modelo de vida e de consumo que leva ao abismo. Foi depois deste texto – posterior à exortação onde o Papa diz que “esta economia mata” (exortação apostólica Evangelli Gaudium, 2013) – e da intransigente defesa dos migrantes, com duras críticas a Trump, que o Papa se viu alvo de uma agressiva campanha nos Estados Unidos, acusado de ser um perigoso extremista e comunista.

“Os recursos da terra estão a ser depredados também por causa de formas imediatistas de entender a economia e a actividade comercial e produtiva”, denuncia o chefe da Igreja católica, “a perda de florestas e bosques implica simultaneamente a perda de espécies que poderiam constituir, no futuro, recursos extremamente importantes não só para a alimentação mas também para a cura de doenças e vários serviços” (32, LS).

É nesta encíclica que o Papa lança um novo debate sobre a política e o exercício político. “O mundo do consumo exacerbado é, simultaneamente, o mundo que maltrata a vida em todas as suas formas”, constata, afirmando a necessidade de “voltar a sentir que precisamos uns dos outros, que temos uma responsabilidade para com os outros e o mundo, que vale a pena ser bons e honestos”.

Se a “degradação moral” e a falta de ética destroem “o fundamento da vida social”, colocando “uns contra os outros na defesa dos próprios interesses”, despertando “novas formas de violência e crueldade” que impedem o desenvolvimento de “uma verdadeira cultura do cuidado do meio ambiente“ (229, LS), o Papa propõe o conceito de “amor civil e político”.

É o princípio da corresponsabilidade, enquadrado na chamada Doutrina Social da Igreja: “O amor, cheio de pequenos gestos de cuidado mútuo, é também civil e político, manifestando-se em todas as acções que procuram construir um mundo melhor” (231, LS). Este “amor à sociedade e o compromisso pelo bem comum” implicará as relações entre os indivíduos e as “ macro relações como relacionamentos sociais, económicos, políticos” (encíclica Caritas in Veritate, Bento XVI, 2009).

A ecologia integral preconizada por Francisco, de Roma, sintoniza-se com o hino de Francisco de Assis. A preocupação com a natureza e a paz é inseparável da justiça, do combate à pobreza, de um compromisso social que contrarie as desigualdades.

2. “Temos de agir” – um compromisso português.

O apelo de Genesis Butler vai além do circunstancial impacto da campanha que protagoniza, pois não se dirige apenas ao Papa. É um apelo ao compromisso, lembrando avanços e recuos dos pactos e metas definidas pelos consórcios e organizações intergovernamentais.

Esta tarefa apresenta-se com tanta urgência quanta a evidência de um quotidiano que já nos habituou à imprevisibilidade dos ritmos e vontades do clima.

Como sublinha o Papa Francisco, cada indivíduo, cada comunidade, cada núcleo de influência, tem uma responsabilidade própria. É o caso das estruturas religiosas, a começar nas lideranças.

Com reduzido impacto mediático, quase passou despercebido o momento histórico vivido em Junho de 2017. Dias antes da tragédia de Pedrógão, representantes de todas as confissões religiosas em Portugal assinaram em Vila Nova de Gaia, durante a primeira versão do evento Gaia – Todo Um Mundo, o Compromisso pela Casa Comum e pela Ética do Cuidado. O texto foi trabalhado por investigadores da área de Ciência das Religiões da Universidade Lusófona, depois de elaborada reflexão e diálogo.

Os subscritores reconhecem que “existe uma ligação fundamental entre o que fazemos e o que isso faz ao Planeta, ou seja, à «casa que é comum» que, longe de ser uma qualquer propriedade ou recurso de quem quer que seja, é acima de tudo a condição de possibilidade de existirmos, vivermos e aprendermos a cuidar”. Concordando que há uma “interdependência fundamental da Vida”, vislumbram a necessidade de “uma revolução cultural que transforme o homem (…) num sujeito ecológico que entende e experiencia o ethos como morada global”. Além do estudo “de uma rede natural de vida e da revisão do lugar do homem na Natureza, precisamos de (re)encontrar o lugar da Natureza no humano”, lê-se, o ser humano é “em relação e interdependência, ser no mundo e com o mundo”.

Porque, embora de diferentes formas, as diferentes tradições religiosas abordam “as mesmas preocupações perante alterações ambientais radicadas em práticas que contrariam os equilíbrios dos ecossistemas”, os representantes das confissões religiosas radicadas em Portugal assumem a vontade de elevar a voz “para que todos e cada um, pessoal ou institucionalmente, cooperem pela paz radicada na Compaixão por toda a vida planetária, de modo a que seja estabelecido um programa ecológico eficiente, pleno de impulso fraterno e sustentabilidade verdadeiramente integral.”

Este Compromisso foi subscrito também por autarcas e investigadores, numa cerimónia precedida de um debate sobre a relação entre o pensamento religioso e a ecologia, cujo tema inspirou o título deste texto – A Terra em risco, o Mundo em Procura.

Noutra sessão, o Compromisso pela Casa Comum e pela Ética do Cuidado voltou a ser subscrito na Amadora por representantes locais das confissões religiosas e da autarquia. Está em dinâmica crescente, procurando envolver lideranças, na expectativa que tome formas práticas nas comunidades religiosas, com consequências no comportamento individual.

Na sequência desta iniciativa, a área de Ciência das Religiões da ULHT anunciou já criação de um selo ambiental a atribuir às estruturas religiosas.

Sendo abrangente, este Compromisso não especifica a questão alimentar, mas esta é subjacente quando os subscritores se comprometem “a tudo fazer para inverter práticas depredatórias, promovendo uma compreensão ecológica associada a valores éticos”. O resto cabe à mediação e especificidade do impacto da religião na vida concreta dos crentes.

3. “Cozinhar é um modo de amar os outros” – as religiões e a alimentação

A questão ambiental é um pilar do fenómeno religioso, mas não é uma gaveta isolada no armário da experiência religiosa. O mesmo acontece com o ato de comer.

Se perscrutarmos a ancestralidade do fenómeno religioso, verificaremos sem dificuldade que os interditos alimentares definidos pelas religiões derivam, em grande medida, de uma relação de dependência com o meio, entre a vontade humana, o concreto da sobrevivência e a procura de sentido para o abstrato.

A visão antropos compreende-se na grande angular do meio envolvente e de uma alteridade orientadora, organizadora. É o homem no meio, que em contexto bíblico assume o papel de cuidador delegado e responsável, gestor em mediação ética.

Até em práticas religiosas animistas, a divinização de animais reflete paradoxalmente esta matriz de compreensão do meio. Satisfazendo os deuses, o sacrifício dá altivez à espécie.

As narrativas do sagrado a Oriente definem também o papel humano nesta cadeia. No percurso para a moksha ou para o nirvana, a ética da interdependência é determinante. A libertação faz-se no respeito pelo meio, porque tudo está ligado e transporta o sopro da existência. Neste contexto, aniquilar um ser vivo é um revés.

Um debate realizado em Novembro de 2018 na Mesquita Central de Lisboa realçou o papel das religiões na promoção de uma alimentação saudável, valorizando o acto de comer e os sistemas tradicionais de produção.

Paulo Mendes Pinto, coordenador da Área de Ciência das Religiões da Universidade Lusófona, lembrou que as religiões, e sobretudo os monoteísmos, “em que a refeição é central na sociabilização e na prática religiosa, valorizam o acto de comer”. As narrativas religiosas monoteístas, acrescentou, falam num “mandato” dado ao homem para distribuir com justiça e “cuidar da Terra participando no acto da Criação”. O desafio religioso é o da “igualdade”, concluiu, “a alimentação é uma responsabilidade ética”, sendo por isso assustador voltar a ver imagens de crianças a morrer à fome quando se sabe como superar essa carência.

“Cozinhar é um modo de amar os outros”. Estas palavras de Mia Couto serviram de ingrediente para a conversa servida na mesquita com uma pergunta na ementa: “Como alimentar a Humanidade de forma sustentável?”

Francisco Sarmento, o representante da FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura) em Portugal, abriu o apetite da conversa citando o poeta moçambicano, biólogo e escritor, para realçar a importância de se encarar a alimentação com responsabilidade ética: “Cozinhar é o mais privado e arriscado acto, no alimento se coloca ternura e ódio, na panela se verte tempero ou veneno. Cozinhar não é um serviço, cozinhar é um modo de amar os outros.”

A partir das palavras de Mia Couto, Sarmento salientou que “alimentação e sustentabilidade têm de estar juntas”, pois “não se pode alimentar a Humanidade de forma insustentável”.

Especialista em gestão alimentar e políticas agrícolas, o representante da FAO alertou para o novo problema da produção excessiva de calorias, em vez de nutrientes, que faz aumentar a incidência de doenças como a obesidade ou a diabetes, desencadeando indirectamente, entre outros dramas, a exclusão social e o absentismo laboral. A situação é mais grave nos países em vias de desenvolvimento “que não têm sistemas de saúde capazes de responder”, afirmou. Francisco Sarmento alertou ainda para a necessidade de “mudarem os padrões de consumo alimentar, com a evolução para dietas” mais saudáveis e ecologicamente sustentáveis e admitiu que esta discussão pode ser frustrante: as soluções são conhecidas mas parece faltar vontade política para contrariar uma “alimentação cada vez mais industrializada, que afecta os grupos mais desfavorecidos”.

As estruturas sociais, incluindo as religiosas, “têm um papel pedagógico na alimentação saudável, valorizando o acto de comer e os sistemas tradicionais de produção”, acrescentou Francisco Sarmento, insistindo no reforço “dos produtores familiares, ligando o meio-ambiente à agricultura, reconstruindo sistemas localizados, de proximidade, na produção e na confecção”, para atenuar o uso químico de conservantes.

4. “Abstenha-se de produtos de origem animal durante a Quaresma” – o apelo ousado.

O convite ao Papa tem um contexto. Na tradição cristã, a Quaresma é um tempo de jejum e abstinência, abrindo espaço à oração e à penitência dos fiéis, correspondente ao período de quarenta dias de preparação para a Páscoa. Lembra o número quarenta, simbólico em muitas narrativas do Antigo e do Novo Testamento, como os quarenta dias que Jesus passou no deserto ou os 40 anos da travessia dos judeus no deserto.

Mas o que pede Genesis Butler ao Papa? A tradição católica revela comportamentos exacerbados no folclore das devoções. Mas, entre a teatralização da penitência como catequese e o exercício da chamada «mortificação corporal» – cuja sustentação teológica é controversa – sobrevive um princípio orientador na vivência deste tempo.

Na indicação do papa Leão Magno, há que “mortificar um pouco o homem exterior, para que o interior seja restaurado, perdendo um pouco do excesso corpóreo, o espírito reforça-se”.

O jejum da Quaresma não consiste na contenção dos impulsos da libido ou na privação de alimentos para fazer dieta, embora esta acabe por resultar numa ação de restabelecimento. É sobretudo um convite à experiência espiritual. As buscas do e pelo espírito compreendem o indivíduo como um todo – corpo e alma.

Na disciplina tradicional da Igreja, jejum e abstinência fazem-se da Quarta-feira de Cinzas à Páscoa, limitando a alimentação diária a uma refeição ou comendo de forma ligeira e simples, evitando o esbanjamento. Os fiéis podem ainda privar-se de uma certa quantidade e qualidade de alimentos ou bebidas. A mais praticada é a abstenção da carne, pelo menos nas sextas-feiras da Quaresma.

A missiva de Genesis Butler usa a figura do Papa para dar um impulso mediático à opção vegana como proposta de vida, contribuindo para contrariar a “destruição e devastação global” provocada por um excessivo consumo de carne. Verificando-se a generosidade e honestidade da campanha, o Papa não se incomodará, pelo contrário. Mas convém reforçar que não basta deixar de comer carne para resolver o problema e fazer a desejada revolução nos hábitos alimentares. Não comer carne na Quaresma será uma opção tranquila para o Papa e não será difícil para qualquer outro católico, nem para qualquer outro cidadão, crente ou não crente. E, na verdade, não é ao Papa que este convite se dirige…

Por Joaquim Franco, jornalista da SIC e investigador em Ciência das Religiões