A menina ativista que desafia o Papa

Ambivalências de uma campanha

Hoje, em vários países do mundo, as notícias vão-nos acordando com o eco de uma campanha: Million Dolar Vegan. O que dizer sobre esta campanha?

1º Uma estratégia comunicativa eficaz

A primeira coisa que há a dizer é que esta é uma campanha eficaz de comunicação capaz de mobilizar vários recursos: personalidades, meios de comunicação, redes sociais, etc. Tudo foi pensado ao pormenor para que, no dia certo, o buzz comunicativo fosse capaz de marcar a agenda mediática. O vínculo emotivo que se deseja que o público estabeleça com esta iniciativa é procurado na escolha dos interlocutores. De um lado Genesis Butler, uma criança de 12 anos conhecida por ser uma ativista que defende o veganismo como meio para proteger o ambiente e por lutar a favor das causas ambientais. Do outro lado, o Papa Francisco que se tem destacado por ser uma personalidade credível bem para lá das fronteiras da Igreja Católica. Um Papa que responde a cartas e telefonemas de crianças, como não se deixará tocar por esta campanha? É esta a pergunta que quem delineou toda a estratégia comunicativa quer que façamos.

O Papa não deixará de dar atenção a todos os apelos para que o mundo seja justo, e por isso, pode ser que aproveite a ocasião para reforçar o que tem dito sobre a necessidade de cuidarmos da casa comum, mas é um homem livre e terá o cuidado necessário para não se deixar prender a armadilhas emotivas, por muito inteligentes que sejam.

Não deixa de ser um bom sinal que movimentos muitas vezes longe da Igreja encontrem no Papa um interlocutor. Isso demonstra a credibilidade do Papa e a importância da Igreja ter uma presença construtiva e positiva no Espaço Público. Mas, quando tantos recursos são disponibilizados para uma campanha sem que sejamos capazes de compreender de forma definitiva tudo o que está em jogo (é este, sinceramente, o meu caso) temos que ser cautelosos.

2º Um problema sério e real

A campanha alerta para questões que nos devem preocupar a todos: alterações climáticas, padrões insustentáveis de consumo, desigualdades, poluição, etc. E diante de tanta desinformação é importante que estes temas não deixem a agenda mediática, mas sobretudo é importante que não deixemos de pensar criticamente sobre eles. Se a campanha contribuir para isso, já terá dado um contributo positivo. Mas importa também lembrar que a Carta Encíclica Laudato Si, a que a própria campanha se refere, nos convoca para o compromisso com uma Ecologia Integral. Nesse sentido, não há soluções únicas e mágicas. Uma dieta vegan generalizada não resolve de um modo simplista e definitivo todos os problemas ambientais.

A campanha pode ajudar a que cada pessoa tome consciência de que não há mudanças ambientais, sem uma mudança pessoal. Mas essa mudança implica que o modo como olhamos para criação e para vida no seu todo, para o modo como nos relacionamos de um modo justo

uns com os outros e com a Natureza. Visões unilaterais que absolutizam um único caminho não são solução.

3º Levar a sério a Quaresma

Para quem não está tão próximo da igreja a Quaresma foi diversas vezes olhada com uma certa desconfiança, como algo ligeiramente bizarro. É um sinal positivo compreender que é possível olhar para este tempo como uma oportunidade para educarmos o modo como consumimos, procurando evitar uma atitude “predatória” e desenvolvendo a consciência de que tudo é um dom de Deus. A sobriedade a que os cristãos são convidados neste tempo é um convite à gratidão e à solidariedade. A campanha reconhece e incentiva este aspeto.

Mas se há característica que Jesus sublinha no modo como os seus seguidores devem viver os momentos de penitência (exercícios que ajudam à mudança de vida) é que estes devem partir de dentro e evitar dar espetáculo. A Quaresma é para os cristãos um tempo em que desejam exercitar-se na mudança de vida para tornar mais justas todas as suas relações: com Deus, com cada ser humano e com toda a criação. Mas essa mudança não deve vir de imposições externas, nem deve deixar-se embrulhar em espetáculo, aparência ou ruído.

4º O que é a solidariedade

Finalmente pode perguntar-se: como responderá o Papa a esta campanha? Sinceramente, não sei responder a esta pergunta. Mas há algumas considerações que podemos fazer.

É certo que o Papa Francisco sabe aproveitar todas as oportunidades que lhe são dadas para alertar contra as injustiças que afligem o mundo e penalizam os mais vulneráveis. E esta pode ser uma dessas oportunidades. Mas, convém não esquecer que a solidariedade tal como Cristo a ensina não é condicionada, é gratuita. O Papa não precisa de um milhão de dólares para fazer o que é certo. Não é isso que o motiva. Motiva-o o desejo de se identificar com Jesus que dá a vida gratuitamente. E aqui reside a ambivalência central desta campanha. Querendo contrariar a lógica consumista tantas vezes estimulada pelas “leis do mercado”, a campanha deixa-se manietar pela mais determinista dessas leis: nada pode escapar à lógica do custo-benefício. Só estou disponível a sacrificar-me se me derem alguma coisa em troca, neste caso um milhão de dólares. Ora esse não é o horizonte que move o Papa. A marca da solidariedade cristã é a gratuidade e o serviço desinteressado e isso não tem preço.

Padre José Maria Brito

Diretor do Ponto SJ - Portal dos Jesuítas em Portugal