A menina ativista que desafia o Papa

Bons sinais

Fernando Mano

Fernando Mano

Doutorando em alterações climáticas e políticas de desenvolvimento sustentável, ICS-Universidade de Lisboa.

Ao longo das últimas quatro décadas, ao mesmo tempo que a população humana duplicou, a produção global de carne aumentou mais de 3 vezes. Segundo a FAO, o consumo global anual per capita passou de 23Kg em 1961, para 42Kg em 2009. Portugal é um caso de surpreendente aumento do consumo per capita de carne, tendo passado de 20,6Kg em 1961, para 112,3Kg em 2016 (INE, 2017).

Os animais são fábricas de calorias e de proteínas muito pouco eficientes. Apenas cerca de 10% da energia consumida pelos animais chega ao prato dos consumidores sob a forma de pedaços comestíveis. Tal facto representa um enorme desperdício de recursos, num Planeta cuja população humana não para de aumentar e onde ainda subsiste a fome. Hoje, mais de 40% da produção de cereais e 80% da produção global de soja, estão a ser fornecidos como alimento a animais, num processo altamente ineficiente em que 6Kg de ração não produzirão em média mais de 1Kg de carne. Por maiores que possam vir a ser os ganhos de eficiência proporcionados pelo avanço tecnológico, a terra fértil será cada vez mais insuficiente para sustentar a prática de dietas que incluem grande percentagem de proteína animal. Acresce que na maioria dos países o consumo de proteína animal há muito ultrapassou o recomendado pelas principais organizações internacionais de saúde, com destaque para a Organização Mundial de Saúde, sendo crescente causa de problemas de saúde. A pecuária é um dos principais fatores de poluição das águas, e um determinante responsável pela perda de eficácia dos antibióticos. Grande percentagem das áreas conseguidas nos últimos anos para a instalação de pastagens e de monoculturas de milho e soja, foram-no á custa do derrube de florestas tropicais de elevada biodiversidade, sobretudo na América Latina, estimando-se que atualmente a atividade pecuária seja responsável por 30% da perda total de biodiversidade.

Ao longo da sua cadeia, a pecuária lança para a atmosfera 14,5% do total de emissões antropogénicas de gases com efeito de estufa, ou seja, o mesmo ou mesmo mais do que o total emitido pelo setor dos transportes. Isto quer dizer que a inclusão de elevadas quantidades de proteína animal na dieta humana, é um claríssimo fator de aquecimento global. A verdade é que será impossível a contenção do aquecimento global nos tão desejados 2C se não houver mudanças na dieta humana no sentido de um menor consumo de proteína animal. Está hoje cada vez mais generalizado o reconhecimento de que as negociações no âmbito da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas (UNFCCC) subestimaram a pecuária. De forma grosseira, podemos considerar que as principais causas de emissão de gases com efeito de estufa são a queima de combustíveis fósseis (75%) e a desflorestação (25%). Hoje a principal causa de desflorestação é a obtenção de áreas de pastagens, e a instalação de campos de milho e de soja para alimentar animais.

De um modo geral os governos têm evitado a abordagem do problema. Fazem-no por várias razões, sendo notória a influência que proeminentes interesses económicos têm tido nesta matéria. Tudo o que for feito para dar visibilidade às enormes disfunções causadas pelo excessivo consumo de proteína animal, deve merecer aplauso. Meritória é sem dúvida a carta enviada por Genesis Butler - uma jovem ativista de apenas 12 anos - ao Papa, sugerindo que este se abstenha de comer carne durante a Quaresma e prometendo em contrapartida uma doação de um milhão de dólares em nome da Blue Horizon Foundation, que o Papa Francisco poderá utilizar como entender. A adesão do papa a este repto seria um extraordinário serviço à Humanidade. O excesso de consumo de carne na Páscoa tinha especial significado de Festa num tempo em que ao longo do ano a dieta tradicional se caracterizava pela penúria de carne, de lacticínios e de ovos, situação que já não se verifica hoje nos países mais desenvolvidos. Sendo o Papa alguém da América Latina, a sua abstenção do consumo de carne durante a Quaresma teria um significado especial para muitos pequenos agricultores, pois o excessivo consumo de carne, especialmente nos países mais desenvolvidos, está a expulsar milhares de camponeses latino-americanos de terras onde praticavam tradicionais e sustentáveis formas de subsistência, para a instalação de vastas áreas de pastagens ou de campos de milho e de soja. Estima-se que só no Paraguai, mais de 100.000 pequenos agricultores tenham sido expulsos das suas terras desde 1990. Muitos são os que têm responsabilidade nisto. A União Europeia, por exemplo, apesar de utilizar direta ou indiretamente, dois terços da sua área fértil para a produção animal, necessita da produção de vários milhões de hectares fora do seu território para manter o elevadíssimo nível de consumo de carne que se pratica nos seus Estados-membros. Assiste-se assim a uma competição entre os consumidores mais ricos que querem consumir muita carne e portanto muitos recursos naturais, desde logo terra, com os consumidores mais pobres, que mesmo necessitando de pouco recursos vêm a sua sobrevivência ameaçada em consequência da voracidade por proteína animal dos primeiros. A literatura científica refere igrejas protestantes, nomeadamente dos EUA, que desde há muito encomendam estudos na área da saúde pública, com o objetivo de melhor fundamentarem as recomendações que dão aos seus fiéis no sentido da moderação do consumo de carne. Portanto, a sugestão da pequena Genesis seria uma excelente oportunidade do Papa Francisco ajudar a colocar nas agendas oficias um tema inadiável. Seria um excelente sinal para o Mundo.

Excelente sinal foi também a inclusão da redução do nosso efetivo bovino no Roteiro para a Neutralidade Carbónica. Um ato de coragem do Ministro do Ambiente. Mais confusa foi a reação do ministro da agricultura, ficando a sensação de que não compreende alguns dos grandes desafios globais que todos estamos a enfrentar… Pouco clara foi também a atuação do secretário de estado das florestas e do desenvolvimento rural, que publicamente proferiu duas ou três lapalissadas,mas que talvez não tenham querido dizer nada, a não ser transmitir ao setor pecuário que pode continuar a contar com ele como secretário de estado, claro está…

Mas o difícil de perceber não se fica pelos governantes. O atual diretor geral de alimentação e veterinária, apesar de Professor na Universidade de Lisboa também diz não compreender que a pecuária seja determinante no aquecimento do clima…

A redução do sobreconsumo de proteína animal, e implicitamente da atividade pecuária, terá de ser algo muito mais vasto e intenso no nosso País, do que o que agora começa por ser proposto no Roteiro para a Neutralidade Carbónica, todavia começar pela espécie bovina é um procedimento racional.

Fernando Mano

Fernando Mano é doutorando em alterações climáticas e políticas de desenvolvimento sustentável, ICS-Universidade de Lisboa.

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