A menina ativista que desafia o Papa

Neutralidade carbónica e o nosso futuro em comum

A estabilização do clima da Terra, que o Acordo de Paris pretende assegurar até finais deste século, exige uma alteração radical do sistema mundial de produção que herdámos do passado e expandimos para responder a níveis crescentes de consumo.

Somos cada vez mais os que habitam o Planeta e cada um de nós tem aumentado o seu perfil de consumo.

O trabalho liderado por Johan Rockstrom, publicado na Science em março de 2018, deixa claro que as emissões globais dos combustíveis fósseis devem começar a descer a partir de 2020 até desaparecerem por completo em meados deste século. Não levar a sério esta asserção implica incorrer em custos, tendencialmente muito avultados num futuro mais ou menos próximo, e muito sofrimento humano, como aliás já temos vindo a assistir episodicamente, incluindo Portugal.

Atualmente temos o conhecimento e as soluções para invertermos rapidamente o caminho atual. É moralmente obrigatório e tecnologicamente possível limpar o sistema energético mundial até 2050, e alterarmos o perfil de consumo, nomeadamente do consumo de carne e da fast fashion, para nomear apenas alguns exemplos que mais pesam na fatura ambiental do Planeta. As mudanças deverão ser transversais, em todos os sectores da economia, e de adoção coletiva. Indústria, edifícios, espaços públicos, comércio e transportes deverão fornecer os seus serviços sem a emissão de gases com efeito de estufa. Novos materiais de construção, novos sistemas de mobilidade, novos produtos de consumo circular e uma dieta baseada nas plantas são exemplos que devem ser prosseguidos, porque já existem disponíveis no mercado.

Muitos cidadãos já perceberam que as alterações climáticas não são um tema reservado aos cientistas, aos políticos ou a estruturas distantes do seu dia a dia, mas um processo que afeta todos, por vezes de forma muito violenta, e por isso diz respeito a todos. O Roteiro para a Neutralidade Carbónica, em consulta pública até 15 de março, é um documento que apresenta trajetórias prospetivas para Portugal por forma a que a economia portuguesa chegue a 2050 neutra em carbono, isto é, o montante da emissões de todas as atividade económicas realizadas em território nacional devem ser compensadas por igual montante de carbono sequestrado da atmosfera pela floresta, pastagens e solos. Em muitos aspetos, sobretudo no setor energético, propõe-se uma mudança de paradigma, que requer atenção desde já, para que as próximas decisões de investimento de todos os agentes económicos envolvidos sejam de acordo já na década que se aproxima, de 2020 a 2030.

Propõe-se uma aposta clara na eficiência e suficiência energética, a par do uso maciço de renováveis em todas as atividades, suportada por recursos nacionais e por isso com vantagens claras na balança comercial. As cidades poderão ser a maior montra da transformação energética, privilegiando modelos de uso ultra-eficiente da energia e da água, modelos de partilha de recursos e equipamentos, como já existe para a mobilidade, e modelos de organização do trabalho-lazer que privilegie os núcleos designados por walkable cities, que evitam as deslocações diárias massivas. Nesta evolução, espera-se a libertação de muito espaço nas cidades que deverá ser ocupada por sumidouros de carbono, com vantagens adicionais positivas na saúde pública e na biodiversidade. Propõe-se a redução do consumo de carne de bovinos, em linha com tendências atuais observadas e com recomendações de comissões de peritos, com benefícios para a saúde humana e do Planeta. Propõe-se uma aposta clara na floresta, pela melhoria da sua produtividade e prevenção e combate

eficaz dos fogos rurais. As energias renováveis permitem atingir uma economia de baixo carbono, porém alcançar a neutralidade exige uma atenção dedicada à floresta portuguesa.

Não sabemos como será viver num Planeta com uma temperatura média superior a 2ºC, pois representará uma rota totalmente nova para a biosfera, e seguramente perigosa para a humanidade, como esclarece o relatório do IPCC de 2018. A produção de alimentos, o ciclo da água e tudo que a biosfera nos fornece para a nossa vida de todos os dias estará em causa. Não imagino as consequências sociais e económicas de um futuro com estas características. Governos e empresas devem rodear-se de ciência, para informar as suas decisões pois, em última análise, são eles os responsáveis morais pelo estado do Planeta que deixaremos às futuras gerações. Compete-nos a todos estar informados e agir de forma consciente, nas decisões de consumo do nosso quotidiano. Com o que sabemos hoje, já não há margem para erros!

Júlia Seixas

Professora nas áreas da Deteção Remota em Ambiente, e Energia e Alterações Climáticas; Coordena a linha Energia & Clima do centro de investigação CENSE, dedicada a I&D para a neutralidade carbónica da FCT da Universidade Nova de Lisboa.