A menina ativista que desafia o Papa

Por uma nova dieta alimentar

Uma prestigiada revista médica internacional – a The Lancet - divulgou um estudo vasto e recente sobre a condição alimentar do mundo e o seu futuro.

Ficámos a saber, sem grande surpresa, que as desigualdades entre quem come demais e quem come de menos, se agravaram, e que, com o aumento previsível da população nas próximas décadas, só será possível evitar fomes trágicas se no mundo ocidental nos habituarmos a comer de outro modo.

Propõe-se assim uma nova alimentação que só trará vantagens para a equidade planetária, para o ambiente e muito directamente para a nossa própria saúde. Menos carne vermelha, menos lacticínios, menos açúcar, menos álcool, menos sal. E, em sua substituição, mais frutas, leguminosas, verduras e frutos secos.

Estas recomendações, agora estatisticamente actualizadas, são reforçadas pela urgência em restabelecer equilíbrios no planeta e nas sociedades.

Quando pensamos nos graves problemas que os países ricos e de consumos abundantes têm com a saúde pública - obesidade, diabetes, tensões arteriais, etc. etc., percebemos que mudar de regime alimentar só traz vantagens para todos - ricos e pobres. Os ricos para comerem moderadamente, e os pobres, como diria Gandhi, para poderem simplesmente comer.

Particularmente a carne de bovino, mas não é a única, tem implicado a destruição ambiental em larga escala: é para a produção de bifes, hambúrgueres e similares que se arrasam florestas, sobretudo nos países tropicais, que se produzem enormes quantidades de milho e soja, que se consome grande parte da água doce disponível do mundo, e que se gera uma enorme fatia dos gases com efeito de estufa (GEE) em termos mundiais.

Mesmo quando os valores exactos são controversos, as proporções são claras. O problema tem-se agravado com o aumento do poder de compra em alguns países em desenvolvimento, como é o caso da China, os hábitos alimentares da sua população vão mimetizando os errados hábitos alimentares dos países desenvolvidos, multiplicando erros em vez de contrabalançar as vantagens.

O alerta que foi lançado agora na revista Lancet por uma equipa interdisciplinar de 37 cientistas, é um belo exemplo da condição global cada vez mais insustentável em que vivemos. Para mais ele tem importantes antecedentes que vão desde o apelo do Papa Francisco na sua Encíclica Laudato Si até à mais recente iniciativa da jovem Genesis Butler em prol de um movimento global para uma alimentação ética. Há, pois, saídas e soluções, e por isso há que tomá-las.

Luísa Schmidt, ICS-ULisboa

Socióloga e investigadora principal do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa onde se dedica à Sociologia do Ambiente e da Comunicação

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