A menina ativista que desafia o Papa

Sobre a importância de mudar o modelo alimentar mais do que deixar de comer carne 

Pedro Graça

Pedro Graça

DGS

Direção-Geral da Saúde

Partilho a apreensão da comunidade científica pela relação entre a produção alimentar e as mudanças climáticas. De facto, a produção alimentar ao longo de toda a cadeia alimentar e aqui incluo, por exemplo, o transporte e a embalagem faz com que por cada caloria ingerida seja necessária a utilização de uma quantidade muito superior de água e energia, e que essa quantidade aumente quando consumimos (de um modo geral) produtos de origem animal.

"Estive em Roma, numa conferência da FAO em que o Papa Francisco esteve presente e, de facto, parecia um nutricionista, preocupado com questões nutricionais. Tal era a assertividade da comunicação relativamente aquilo que são preocupações nossas, dos dias que correm."

Contudo, e antes de diabolizarmos exclusivamente a carne, é necessário um pensamento mais amplo sobre os nossos comportamentos alimentares e sobre a nossa forma de consumir. Para protegermos este nosso planeta precisamos muito mais do que reduzir o consumo de carne.

O primeiro pensamento deveria centra-se sobre a eficiência do próprio sistema, quando 1/3 dos alimentos que produzimos é deitado fora. Isto significa uma enorme ineficiência na produção que é incentivada pelos consumidores que deixaram de comer peixe e passaram a comer filetes ou da compra de fruta normalizada. Ou ainda pelo consumo de produtos alimentares em promoção nos supermercados, em muitos casos desnecessários, que depois não são consumidos.

Outro aspeto importante centra-se sobre o consumo de produtos ultra embalados, sem necessidade, com um desperdício elevado de energia, plástico e outros agressores ambientais. De novo, estes comportamentos são incentivados pelos consumidores ao não escolherem água da rede em casa ou nos restaurantes, ao aceitarem talheres de plástico ou ao comprarem comida embalada em plástico nas lojas alimentares e não separarem em casa.

Um terceiro aspeto relaciona-se com aquilo que eu chamo de desperdício metabólico. Isto tem a ver com o facto de mais de metade dos portugueses terem peso a mais, ou seja, comerem mais calorias do que gastam e provavelmente do que necessitam. Este excesso de energia é convertido em tecido adiposo que é fator de risco para a doença cardiovascular, oncológica e osteoarticular fazendo o país gastar quase dois terços do seu orçamento da saúde em doenças crónicas associadas ao nosso estilo de vida, que poderia ser modificado por cada um de nós. A alimentação inadequada é em Portugal o principal responsável pelos anos de vida saudáveis perdidos pelos Portugueses.

No meio disto tudo aparece a carne.

Acredito que o nosso modo de comer mediterrânico, onde a carne era venerada porque exígua, dá uma lição ao mundo de como ser vegetariano com pequeníssimas quantidades de carne e peixe. Este modo de comer que sempre lidou com as alterações sazonais do clima, recorreu ao grão, às lentilhas e a outras formas de leguminosas mais cereais para combater a escassez crónica de proteína animal. Aqui entra o queijo e a carne seca e aromatizada (a nossa tradição de enchidos) para fingir a carne no meio dos mais diversos hortícolas na lógica dos comeres mediterrânicos.

No mediterrâneo sabemos que pequeníssimas porções de carne ao longo da semana, podem desempenhar um papel importante ajudando as pessoas a satisfazer suas necessidades essenciais de nutrientes e com riscos relativamente baixos para a saúde. Uma quantidade mesmo que pequena de carne magra possui quantidades importantes de minerais como magnésio, ferro, potássio e zinco e vitaminas do complexo B (Em particular vitamina B12 que não existe em produtos de origem vegetal), de proteína de alto valor biológico com todos os oito aminoácidos essenciais requeridos por adultos.

Este modo de comer mediterrânico pode significar na prática o consumo de carne ou peixe ocasionalmente ao longo da semana. Ou seja, 2 a 3 refeições por semana de carne ou peixe e a necessidade de variar os vegetais, de os saber comprar diariamente, combinar e cozinhar.

Estaremos preparados para este novo modo de comer e de investir tempo (diário) na compra e confeção de alimentos?

E já agora, de práticas, essas sim, ambientalmente pouco sustentáveis como o consumo de um peixe chamado bacalhau, pescado a milhares de quilómetros da nossa mesa?

Esta mudança, mais do que sobre o tipo de alimento (importante) deve centrar-se também nos processos de produzir, que devem ser eficientes para alimentar um número crescente de seres humanos à face da Terra mas ao mesmo tempo sustentáveis (ambientalmente e socialmente), independentemente de serem produtos de origem animal ou vegetal.

Este texto, publicado no blog Nutrimento, deixa claro o empenho da DGS nesta área, através do Programa de Alimentação Saudável.

https://nutrimento.pt/noticias/2019-comer-melhor-proteger-planeta/

Vale a pena sublinhar que fomos o primeiro Ministério da Saúde na Europa a publicar orientações específicas para crianças em idade escolar com uma dieta vegetariana.

https://nutrimento.pt/manuais-pnpas/alimentacao-vegetariana-em-idade-escolar/

https://nutrimento.pt/manuais-pnpas/linhas-de-orientacao-para-uma-alimentacao-vegetariana-saudavel/

Pedro Graça é diretor do Programa Nacional para a Promoção da Alimentação Saudável da Direcção Geral da Saúde e diretor da Faculdade de Ciências da Nutrição e Alimentação da Universidade do Porto.

  • Via Sacra – Episódio 2
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