Afeganistão: Capital dos Errantes

“Se o inferno existe, fica em Moria”

Pedro Coelho

Pedro Coelho

Jornalista Grande Reportagem SIC

M. nasceu no Iraque. Rondará os 30. Fala bem várias línguas; ensina matemática e inglês a crianças refugiadas que vivem no campo de Moria, a uma dúzia de quilómetros de Mitiline, capital da ilha de Lesbos, na Grécia. M. viveu vários meses em Moria. A frase que dá título a este texto, pertence-lhe.

Estivemos em Moria duas horas. Foi quanto nos bastou para percebermos os contornos desse “inferno” que povoa os pesadelos de M.

4500 pessoas de muitos lugares, a ocuparem um espaço desenhado para 3 mil. Uma babel de horrores invadida por tendas de lona, contentores, proteções de plástico apodrecido disfarçadas de abrigo, centenas de crianças, dezenas de velhos, de jovens, mulheres, homens solitários.

Têm em comum a errância, mas apenas isso.

Há classes sociais enlatadas e misturadas. Empresários que um dia foram ricos e marginais que um dia foram marginais. Nacionalidades diversas, crenças de amplo espetro, todos encavalitados nas mesmas filas de comida, presos ao mesmo desespero amargo, mergulhados no infortúnio dos que perderam o futuro.

Moria é um inferno gerido com mão de ferro. Haveria outra maneira?

As organizações não governamentais, que habitualmente apoiam refugiados, afastaram-se de Moria. E o lugar perdeu o que lhe restava de esperança.

80 por cento dos atuais habitantes de Moria são afegãos, a nacionalidade que a Europa rejeita.

No centro de Moria há um campo de detenção: uma espécie de coração que quase parou de bater.

O crime instalou-se em Moria. Os que quebram as regras acabam no campo de detenção. Já não regressarão aos contentores. Cumprida a pena, a Grécia colocar-lhes-á nas mãos o bilhete de regresso. A maioria, contudo, perdeu o ponto de partida: dissolveu-se na guerra que os fez fugir.