Afeganistão: Capital dos Errantes

Afeganistão: na fronteira entre a guerra e a paz

Patrick de Noirmont

Diogo Barradas

ALUNo de JORNALISMO DA NOVA FCSH

Maria Castanheira

ALUNo de JORNALISMO DA NOVA FCSH

O país está há 40 anos preso em conflitos étnicos e religiosos que acontecem sob os estandartes dos credos, mas, sobretudo, sobre a terra que se quer cultivar.

O termo “Médio Oriente” é um legado do passado colonial. Hoje fala-se de uma zona WANA (West Asia and North Africa), que partilha os mesmos alicerces étnicos e culturais. “O que está em causa são sociedades tribais, onde os clãs e as tribos têm uma importância fulcral na sociedade”, explica Maria João Tomás, investigadora especialista em religião islâmica.

Nestas regiões, a religião contribui fortemente para a identidade das tribos. Segundo as estimativas do World Directory of Minorities and Indigenous People, o Afeganistão é maioritariamente constituído por muçulmanos sunitas, correspondendo a cerca de 85%. Já os muçulmanos xiitas perfazem uma percentagem da população no intervalo de 10-15%. Outros grupos religiosos, como os hindus, budistas, parses, sikhs, bahá'í e cristãos, constituem 0,3% da população.

Damir Sagolj

Estima-se que os pachtuns, na maioria sunitas, correspondam a 42% da população e defendem uma interpretação ortodoxa do Islão. Do outro lado da fronteira étnica, aponta-se que os hazaras constituam 9% da população afegã. Esta fação mais moderada já foi maioritária – correspondia a 67% da população total –, até perder a autonomia política na sequência do massacre de 1893, que aniquilou quase metade dos hazaras.

A força dos pachtuns gerou a designação “Pachtunistão”, expressão que dá nome aos residentes pachtuns no Afeganistão e no seu país vizinho, Paquistão. Maria João Tomás esclarece: “há um país dentro do país. A zona controlada pelos pachtuns é uma zona quase autónoma em termos legislativos”. “Os pachtuns utilizam a religião para controlar a população, ao aplicar regras muito fechadas e ortodoxas”, explica.

As escrituras e a posse da terra

O antagonismo entre pachtuns e hazaras é a principal razão para os focos de conflito regionais. “Todas as questões religiosas ou culturais são utilizadas como arma de arremesso e como justificativa para a guerra”, explicita a investigadora. Se, por um lado, a contenda religiosa surgiu com a sucessão do profeta Maomé, as diferenças, hoje, expressam-se através de perspetivas muito diferentes sobre o Islão.

O Afeganistão é uma república islâmica, regulada pela Sharia, isto é, pelo direito Islâmico, o que significa que há uma dependência do direito pela religião e a lei é fundamentada nas próprias escrituras. Apesar da clara rigidez da lei, certos grupos pachtuns defendem ativamente interpretações ainda mais rigorosas da Sharia.

Parwiz Parwiz

A religião faz as manchetes dos jornais, mas a raiz dos problemas é mais profunda. Como desenvolve Maria João Tomás, a vivência destas tribos afegãs está permanentemente ligada à terra que habitam. Dela depende frequentemente a sua sobrevivência. As economias locais subsistem através da exploração de recursos, nomeadamente a plantação de papoila, cujo destino é a produção de opioides. Segundo o World Drug Report 2018, o Afeganistão continua a ser o maior produtor de papoila do mundo, com mais de 75% da área plantada.

É por causa disso que “a tribo vai defender aquele território até à exaustão, porque faz parte da sua subsistência”, detalha Maria João Tomás. Aquilo que se observa no Afeganistão são tribos e etnias a lutar por controlo territorial, da qual depende a sua existência.

A ameaça dos Talibã

De que lado da fronteira estão os Talibã? Em 1979 a União Soviética invadiu o Afeganistão. A sua retirada só aconteceu em 1989, depois de uma década de ferozes conflitos entre a potência nuclear e os Mujahidin, fundamentalistas islâmicos, patrocinados pelos Estados Unidos da América. As cinzas da guerra desencobriram um vazio de poder, pronto a ser preenchido pelos Talibã, outro grupo rigorista islâmico, de raiz Mujahidin.

Considerados uma organização terrorista pela União Europeia e outros países, surgiram em 1994 e governaram o Afeganistão entre 1996 e 2001. Na maioria pachtuns, foram obrigados a abandonar o poder pelas tropas ocidentais que invadiram a região, em oposição ao seu regime. No entanto, a rebelião talibã persistiu e, até hoje, reivindicou ataques como o que feriu Malala Yousafzai, no Paquistão, ou ainda a aniquilação dos Budas de Bamiyan, no Afeganistão.

Segundo Maria Conceição Lopes, que entre 2013 e 2017 pertenceu ao Comité do Património Mundial da UNESCO, a destruição de património como os Budas de Bamiyan possibilita dominar, controlar e destruir os elos que dão solidez às comunidades. “Corresponde à destruição de um sentido de identidade e comunidade, na qual se reconhecem os que praticam a religião e a uma outra escala maior, o mundo inteiro. Serve de aviso de que são capazes de destruir identidades a nível mundial e imporem-se, por via da força”, esclarece.

Durante a sua passagem pelo poder, os Talibã levaram a cabo autênticas campanhas de extermino étnico. Apesar de já afastados do governo, o grupo terrorista ainda exerce controlo sobre cerca de 14,5% do território. O massacre não acabou: “admite-se que, dentro de 20 anos ou menos, as outras correntes religiosas sejam completamente dizimadas”, explica o professor João Henriques.

Ainda hoje, o medo dos Talibã engrossa a fileira de refugiados que procuram fugir ao seu reinado de terror. Segundo o United States Commision on International Religious Freedom 2019 Annual Report, a residual comunidade cristã do Afeganistão tem de praticar a sua religião em segredo, por não existirem igrejas no país. A comunidade hindu tem optado por semelhantes soluções. Já a pequena comunidade bahá'í leva uma existência clandestina. Diversos membros destas comunidades minoritárias abandonam o país, por sentirem que o governo não consegue protege-los. De acordo a UNHCR Global Trends 2017, o Afeganistão é nação de origem de cerca 2,6 milhões de refugiados, superado apenas pela Síria.

Luta pela liberdade religiosa

Apesar da contínua perseguição a minorias étnicas e religiosas, começam a surgir alguns sinais de esperança no Afeganistão. O exemplo da primeira-dama afegã, Rula Ghani, é disto paradigma: uma mulher cristã, na antecâmara do poder. “Ela está a fazer um trabalho muito meritório na ajuda às minorias”, explica Maria João Tomás.

A resolução dos problemas que se vivem no país passa por “tentar mostrar que a maneira como o Islão é interpretado por estes grupos mais ortodoxos não está de acordo com os princípios do islão”, avança.

Já João Henriques considera que a solução passa pelas organizações não governamentais. “É através de ações de consciencialização que alguma coisa pode ser feita pela comunidade internacional”, porque, conclui, o que está a acontecer no Afeganistão “é um problema surdo”.

Adrees Latif