Eleições Autárquicas

Açores, lugar comum de visões distintas

Entrevistas SIC

Os líderes dos dois maiores partidos, PS e PSD, estiveram ambos nos Açores e falaram à SIC.

Pela primeira vez, numa fase de campanha autárquica, os líderes dos dois maiores partidos, PS e PSD, estiveram ambos nos Açores, depois de percorrerem centenas de quilómetros.

António Costa ambicioso e sem desejo de crise

António Costa, nos últimos dias de campanha, procura afirmar o crescimento socialista e acompanhar os seus candidatos.

"Sou secretário-geral do Partido Socialista e o PS, como maior partido autárquico português, e único partido que tem municípios e freguesias em todas as regiões do país, obviamente que tenho de estar com os candidatos autárquicos do PS, seja nas câmaras onde tradicionalmente ganhamos, seja nas câmaras onde tradicionalmente não ganhamos, seja nas câmaras que estamos a disputar, seja nas câmaras que os outros estão a disputar connosco, é um dever do secretário-geral do PS".

Sobre um esforço aparentemente superior ao de anteriores eleições autárquicas, António Costa não vê desta perspetiva.

"Eu acho que nas últimas autárquicas fiz bastantes mais quilómetros, só que a campanha foi, obviamente, mais estendida, esta campanha tem sido mais compactada. Tivemos uma interrupção, pelo falecimento e luto nacional do Dr. Jorge Sampaio, e tudo isso obrigou a compactar a campanha e a fazer uma campanha diferente."

O objetivo de António Costa é o de lutar por todas as autarquias.

"Não se trata de aflição, nem preocupação, nem arrogância de querer ganhar mais. O Partido Socialista, em todos os municípios e todas as freguesias, disputa sempre a vitória. Não deve haver nenhum município em que a disputa não seja, ou com a Direita contra o PS, ou entre o PS e o PCP. O PS é sempre uma das alternativas que está em jogo. Isso significa que nós temos de fazer um esforço grande em todo o país para manter os resultados."

O primeiro-ministro não se esqueceu, igualmente, de vitórias passadas.

"Nós, em 2013, tivemos o melhor resultado eleitoral de sempre em autarquias. Em 2017, superámos esse resultado. Nós, em 2021, quer dizer, é a mesma coisa que dizer a um clube que ganhou por 3-0 que, agora, tem de ganhar 4-0."

Em caso de mais derrotas comunistas nos municípios, a possibilidade de a CDU se continuar a "sentar à mesa" com o PS é uma perspetiva que o primeiro-ministro não quer comentar.

"O PCP sempre quis separar o tema orçamental dos restantes temas. Todos os partidos têm o risco de perder câmaras e todos os partidos se batem por ganhar câmaras. Mas a questão orçamental é uma questão que começámos a trabalhar ainda antes das férias, fixámos um horário de trabalho e ele vai acontecer. E não tenho nenhuma razão para pensar que o PCP terá esta atitude ou aquela atitude. Ninguém no país está preparado para pensar numa crise política. Haveria uma inúmera irresponsabilidade coletiva se, no meio de uma pandemia, a sairmos de uma crise terrível como aquela em que estamos, houvesse uma crise política. Portanto, tenho a certeza que todos vamos trabalhar, de boa fé, o melhor possível".

António Costa também comentou as acusações de falta de capacidade de distinção entre o cargo de primeiro-ministro e o cargo de secretário-geral dos socialistas.

"Primeiro, eu tenho um truque, não sei se já reparou, para sinalizar quando estou a falar numa circunstância ou noutra: uso gravata ou não uso gravata. Posso ser acusado de tudo, ainda agora a Comissão Nacional de Eleições arquivou uma queixa que fizeram. Agora, há uma coisa que é o seguinte: em democracia, obviamente que cada um expõe os seus pontos de vista. É legítimo que quem seja oposição diga 'o Governo não fez isto ou o Governo não fez aquilo'. É óbvio que o partido que está no Governo também diga o que é que fez. O partido do Governo não pode dizer o que é que fez ou o que se propõe a fazer? Então, aí, o partido do Governo estaria impedido de concorrer às eleições, e isso é uma coisa completamente absurda. Portanto, há uma distinção muito clara entre as funções. Agora, é verdade é esta: nós temos que estar concentrados no futuro, e o futuro não é estar a discutir o que os outros partidos dizem, o que os outros partidos fazem."

Rui Rio termina campanha cedo e com confiança

Em Ponta Delgada, Rui Rio partilhou as visões e os objetivos do PSD para as eleições autárquicas de domingo, num dia em que termina as ações de campanha... mais cedo que o esperado.

"Não preciso de ter esse cuidado porque eu estou metido na campanha eleitoral desde 24 ou 25 de agosto, e não seria na última hora que tudo se decide, e para mim seria simbólico terminar a campanha na Região Autónoma dos Açores."

A escolha do local de término da campanha também foi a pensar num resultado diferente nas eleições regionais açoreanas.

"Sei que aqui podemos ter um bom resultado, e, por isso, também quis vir aqui dar uma ajuda para conseguirmos esse bom resultado."

98 câmaras social-democratas contra 161 socialistas são os números atuais, mas, depois de domingo, Rio aponta a outros números.

"O PS tem mais 63 câmaras. Eu dou muita importância às eleições autárquicas por duas razões: primeiro, eu próprio fui autarca, e eu sei que os autarcas e o poder local tomam decisões muito importantes para o dia a dia das pessoas, talvez até mais importante que o poder central; e, por outro lado, para o PSD também é muito importante, porque tem um atraso muito grande para o PS. Quantas eu não sei, mas seguramente que é importante para nós recuperar câmaras. Câmaras de grande dimensão e câmaras de pequena dimensão. Eu dediquei grande parte do meu tempo a ir ao interior do país, justamente mais esquecido, câmaras de menor dimensão, algumas são maiores, algumas são capital de distrito. Portalegre é uma capital de distrito, Guarda é uma capital de distrito. Mas procurar ajudar aqueles que estão mais esquecidos. No fim, vamos ver."

Uma vitória em Coimbra é importante, mas não a única para o líder laranja.

"Se ganhasse Coimbra e não ganhasse mais nenhuma, reduzia de 63 para uma, e também seria pouco. Coimbra é uma bandeira importante, mas há outras que também são importantes. É muito difícil. Só quando chegarmos a segunda-feira é que, olhando para o resultado global, e para o número de vereadores eleitos. É diferente eu ter dois vereadores em dezassete em Lisboa, quando a câmara já foi PSD, ou ter três, ou quatro, ou cinco, ou seis. Uma coisa é válida para os demais. Para o Porto também é válido. Depois, crescer muito no número de vereadores eleitos e crescer tanto que até dê para o presidente é um objetivo. Nós fizemos isto bem. Primeiro, porque, de profissão, eu sou gestor, tenho esta obrigação."

Sobre Lisboa, Rio acredita numa vitória de Moedas, mesmo contra as sondagens.

"As sondagens, não sei se dessas que são bem feitas ou das que são encomendadas, algumas dão 20 pontos de diferenças, outras dão 9 pontos de diferença, outra dá 7 pontos de diferença, dá indecisos na ordem dos 20% e tal, com taxas de respostas das pessoas de 50% e poucos. É tão inseguro o resultado que eu acho que podemos aspirar a que em Lisboa haja uma mudança."

Relativamente à possibilidade de avanço de opositores contra Rio caso haja um mau desempenho nas eleições, o líder do PSD empurra a resposta para o outro lado.

"Isso é uma pergunta que lhes tem de colocar a eles, não é? É difícil de responder porque eu raciocino com parâmetros completamente diferentes, eu tenho uma lógica de estar na política completamente diferente, eu nunca faria o que vejo os outros fazerem. Nunca fiz. Não consigo colocar-me na cabeça deles, tem de lhes perguntar a eles. Não vou contribuir para divisões internas."

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