Benfica Campeão 2018/2019

A Reconquista, por Bruno Lage

Chegar, ver e vencer. A história da caminhada triunfal do Benfica rumo ao título e a contribuição fundamental do homem que a guiou.

UMA EQUIPA QUE NÃO ERA A DELE

O Benfica entrava na época 2018/19 sob o lema da Reconquista. Esta era a palavra-chave, veiculada por jogadores, treinadores e (principalmente) adeptos. Onze letras que carregavam um objetivo primordial: reconquistar o título de campeão nacional, perdido na época transata para o FC Porto.

A aposta mantinha-se em Rui Vitória, treinador bicampeão pelas águias (2015/16 e 2016/17), e o início mostrou-se promissor. Os encarnados ultrapassaram duas eliminatórias e chegaram à fase de grupos da Champions - onde não se repetiu o descalabro da temporada anterior (seis derrotas em seis jogos) - e, após duas vitórias, um empate e três derrotas, ficou assegurada uma vaga nos 16-avos-de-final da Liga Europa.

Rafael Marchante

No panorama interno, apesar dos empates na receção ao Sporting (1-1) e na visita a Chaves (2-2), o triunfo no clássico frente ao FC Porto (1-0) deu crédito a Rui Vitória e parecia recolocar o Benfica na rota do sucesso. Parecia, mas não recolocou.

Três derrotas consecutivas - duas para o campeonato (em casa contra o Moreirense e no Jamor, com o Belenenses SAD) e uma na Champions (em Amesterdão, com o Ajax) - deixaram em cheque o treinador ribatejano. Mas Luís Filipe Vieira segurou-o e reforçou a aposta que tinha feito no início da temporada.

A custo, o Benfica recuperou, reergueu-se e conseguiu mesmo uma série de sete vitórias consecutivas, que culminou numa expressiva goleada ao SC Braga (6-2). Contudo, tal como no pós-clássico, a maior dimensão do feito agigantou a queda. Primeiro um tropeção na Vila das Aves (1-1), para a Taça da Liga, e depois um trambolhão em Portimão (2-0), para o campeonato.

E aí caiu a equipa e caiu também Rui Vitória, por vontade própria, segundo Vieira.

Era tempo de uma nova era na Luz e o escolhido foi Bruno Lage, até então treinador da equipa B das águias. Com passagens anteriores pelas camadas jovens do Benfica e experiências além-fronteiras em Inglaterra e nos Emirados Árabes Unidos, Lage assumia, aos 42 anos, o maior desafio da carreira até então. Pegava num plantel que não escolheu, entrava (a meio) num campeonato em que nunca tinha treinado mas não foi isso que impediu os benfiquistas de lhe pedirem o tão ambicionado 37. E Lage não os queria desiludir.

A RECONQUISTA DOS JOGADORES

As contrariedades acima mencionadas pareceram encarnar no arranque do primeiro jogo da era Lage: aos 20 minutos, o Rio Ave vencia na Luz por 2-0. A forma como o Benfica combateu a adversidade, acabando por vencer o encontro (4-2), personificou, então, o que estava para vir e o que se podia esperar deste novo Benfica.

Ao segundo jogo, estava dado o primeiro passo na longa missão da Reconquista: o Benfica vencia nos Açores e recuperava o 2.º lugar. Mas antes de se focar na reconquista do título, Bruno Lage queria reconquistar os jogadores:

A equipa de Bruno Lage, que passara entretanto de interino a permanente no comando técnico, vencia mas ainda não convencia e após dois triunfos pela margem mínima em Guimarães, para o campeonato e para a Taça de Portugal, veio a primeira derrota e logo sob a forma de eliminação da Taça da Liga. Desvanecia-se o primeiro objetivo da época mas o principal continuava intacto.

Benfica perdeu por 3-1 com o FC Porto nas meias-finais da Taça da Liga

Benfica perdeu por 3-1 com o FC Porto nas meias-finais da Taça da Liga

"O BENFICA ESTÁ BEM SERVIDO"

O desaire no clássico com o FC Porto em nada danificou as aspirações benfiquistas para a temporada. A equipa reagiu com uma goleada ao Boavista (5-1) e rugiu mais que o leão em duas provas de fogo perante o eterno rival: primeiro em Alvalade para o campeonato e de forma imperial (2-4). Três dias depois, novo triunfo (2-1) na primeira mão das meias-finais da Taça de Portugal (insuficiente para evitar, mais tarde, o adeus à prova-rainha).

Vitória em Alvalade foi um dos momentos-chave da época

Vitória em Alvalade foi um dos momentos-chave da época

O Benfica de Lage não se cansava de marcar e poucos antecipavam que após duas intensas batalhas vencidas frente ao Sporting, viria a maior goleada na história do clube desde 1964. Mas veio. 10-0 ao Nacional.

Também no panorama europeu, as águias não desarmavam. Face a um Galatasaray relegado da Champions, um triunfo por 2-1 na Turquia e um empate sem golos na Luz foram suficientes para segurar uma vaga nos oitavos-de-final da Liga Europa (cairia nos quartos, frente ao Eintracht).

"O Benfica está bem servido, porque tem um grande treinador dentro de portas". As palavras eram de Toni e Bruno Lage estava a validá-las dentro de campo.

SEM DORES DE CRESCIMENTO

Consumada a reconquista dos jogadores, o Benfica jogava de forma incisiva. Clínico a defender e letal a atacar. Já poucos duvidavam das capacidades de Bruno Lage para comandar as hostes encarnadas.

A aposta, de forma mais regular, em nomes como João Félix e Ferro rejuvenesceu a dinâmica da equipa e trouxe outra frescura ao futebol praticado pelas águias.

Félix, em especial, começou a destacar-se pela exuberância de exibições pautadas por um misto de talento e irreverência, captando a atenção dos gigantes europeus. Mas Lage queria o jovem craque com os pés bem assentes na terra e, com o filho e o canal Panda como analogias, reiterava o que para si era mais importante:

A força dessa união do coletivo catapultou a equipa para o lugar mais desejado: o topo. E de forma estrondosa, com uma vitória, com reviravolta, no Estádio do Dragão. A Reconquista estava mais perto e a liderança, essa, o Benfica não mais a largou.

João Félix e Rafa marcaram os golos do triunfo no Dragão

João Félix e Rafa marcaram os golos do triunfo no Dragão

FOME INSACIÁVEL DE GOLOS

Os dois pontos de vantagem, perdidos e mais tarde recuperados, alimentaram, jornada após jornada, o sonho que agora se tornou realidade. Mas se os golos valessem pontos, o 37.º título do Benfica já há muito estava assegurado.

Em 19 jogos com Bruno Lage no comando, os encarnados marcaram 72 vezes, o que representa uma impressionante média de quase 4 golos por encontro.

Seferovic foi o melhor marcador da equipa no campeonato

Seferovic foi o melhor marcador da equipa no campeonato

O novo campeão nacional marcou quase tantos golos em 18 jornadas como o FC Porto, segundo classificado, em todo o campeonato. Números ilustrativos da preponderância ofensiva trazida por Bruno Lage.

Os 103 golos marcados na Liga igualam o melhor registo de sempre dos encarnados, alcançado na distante época 1963/64.

A LAGE O QUE É DE LAGE

Chegar, ver e vencer: uma máxima tantas vezes usada mas que encaixa na perfeição na relação entre o treinador Bruno Lage e um grotesco desafio chamado Benfica.

Sem temores nem tremores, o técnico afirmou-se e afirmou a equipa no panorama competitivo, recolocando-a no patamar traçado no início da temporada.

Bastaram cinco meses a Bruno Lage para devolver os encarnados à rota das vitórias e, mais importante que isso, dos títulos. O Benfica é o novo campeão nacional e uma grande percentagem de mérito nessa conquista vai para o homem do leme.

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