Brexit

Camionista perde o direito de passar a fronteira para a UE por causa de uma sanduíche

PETER NICHOLLS

"Bem-vindo ao Brexit, senhor", disse-lhe o agente da alfândega.

Um camionista que levava uma sanduíche mista quando cruzou a fronteira entre o Reino Unido e a UE, nos Países Baixos, ficou sem almoço, porque a introdução de alimentos de origem animal de países terceiros é agora proibida.

"Bem-vindo ao Brexit, senhor", disse-lhe o agente da alfândega enquanto lhe confiscava a sanduíche, num episódio da recente crise protagonizada por milhares de camionistas, tendo como pano de fundo as novas regras no relacionamento entre Londres e Bruxelas.

Laranjas, cereais, sumos, bifes de frango, latas de atum, leite ou fatias de fiambre são apenas alguns dos produtos que os agentes alfandegários dos Países Baixos começaram a confiscar, desde o início do ano, aos motoristas que tentam atravessar o porto de Roterdão provenientes do Reino Unido.

Muitos motoristas continuam a viajar normalmente a partir do Reino Unido, levando consigo sanduíches para comer no caminho, mas esquecem-se da alfândega e ficam à mercê de leis que, até há pouco tempo, apenas se aplicavam a países terceiros, por exemplo a Colômbia ou Moçambique, mas que agora abrangem também o Reino Unido.

"Ainda há muita gente que não sabe exatamente o que é proibido, mas o problema está na falta de informação providenciada pelo Reino Unido: é incompleta e não muito bem explicada", explicou o agente alfandegário Roul Velleman à agência espanhola Efe, instando Londres a "informar melhor os cidadãos".

Os Países Baixos, um dos Estados da União Europeia que mantém controlos alfandegários com o Reino Unido, têm repetido a mensagem há meses aos seus cidadãos, para evitar que as pessoas passem a alfândega com produtos proibidos.

No entanto, o aviso parece não precisar de ser reforçado, já que, na prática, atinge coisas tão comuns como uma sanduíche de fiambre e queijo preparada para matar a fome durante a viagem ou mesmo um ramo de flores que um visitante leva de Londres para dar à namorada em Espanha.

Numa cena capturada por câmaras de televisão públicas holandesas e que está a ganhar notoriedade nas redes sociais, um funcionário da alfândega pergunta a um motorista, no terminal Hoek van Holland, parte do porto de Roterdão, se o fiambre - um produto de origem animal sujeito às restrições da UE - está presente em todas as sanduíches que o homem leva consigo embrulhadas em papel de alumínio.

A resposta positiva levou o agente alfandegário a informá-lo de que iria confiscar "todas" as sanduíches.

"Posso, pelo menos, ficar com o pão?", questiona o camionista, surpreso com a medida.

"Não, vamos confiscar tudo. Bem-vindo ao Brexit, senhor. Sinto muito", justificou o agente, o que levou a uma troca de risos entre os dois, mas deixa claro aos viajantes provenientes do Reino Unido que já nada é igual para os ingleses que pisam território comunitário.

Outro viajante, que aparece momentos depois no vídeo, transporta uma mochila com diversos produtos embalados, incluindo uma lata de atum, imediatamente apreendida pelos agentes da alfândega.

"Desde o Brexit, certos alimentos não podem ser trazidos para a Europa, como carnes, frutas, legumes, peixes e coisas assim", explicou o responsável da alfândega Martijn, depois de revistar vários veículos e camiões à procura deste tipo de produtos.

"A cena das sanduíches é um simples incidente, mas é uma das consequências de sair da UE. Antes de 01 de janeiro, não havia controlos nas fronteiras, mas agora há. É preciso que as pessoas se habituem, até porque nos aeroportos aplicam-se as mesmas regras", enfatizou Roul Velleman.

Embora reconheça que a consciencialização das mudanças está "a aumentar", Velleman acredita que ainda vai crescer mais nas próximas semanas, à medida que o "vídeo da sanduíche" se torna viral.

"Agora os viajantes com proveniência do Reino Unido já sabem que não podem trazer sanduíches de fiambre e queijo", ironizou.

A Comissão Europeia defende que "bens pessoais que contenham carne, leite ou produtos derivados representam uma ameaça real para a saúde de toda a União" e justifica que "os agentes patogénicos que estes produtos podem conter causam doenças como a febre aftosa ou a peste suína clássica".

A proibição deve-se à possibilidade de esses produtos não terem sido produzidos segundo as regras comunitárias, mas há duas exceções: a primeira para viajantes que levem menos de 10 quilos de carne, leite ou derivados das Ilhas Faroé ou da Gronelândia; e a segunda relativa a alimentos para bebés ou animais de estimação cuja embalagem original tenha marca registada e peso inferior a dois quilos.

O Brexit teve início às 23:00 do dia 31 de dezembro do ano passado, quase um ano depois de o Reino Unido ter oficialmente deixado a União Europeia, na sequência de um referendo popular em 2016.

Um novo Acordo de Comércio e Cooperação, concluído em 24 de dezembro, está já em vigor para suceder ao período de transição pós-Brexit, durante o qual o Reino Unido manteve acesso ao mercado único e o respeito pelas regras europeias.

Rompidos os últimos laços de uma relação de quase 50 anos, o acordo garante o acesso mútuo dos produtos aos dois mercados sem quotas nem taxas aduaneiras, mas impõe uma série de barreiras comerciais, como mais controlos aduaneiros e burocracia nas transações económicas.