Chernobyl

35 anos de Chernobyl. Em Portugal, “nuclear, não obrigado”

Exclusivo Online

Rafael Marchante

Nos anos 80, a população juntou-se contra o projeto da primeira central nuclear em Portugal. Duas década mais tarde, um novo plano voltou a estar em discussão. Nenhum dos projetos foi concretizado.

Quem ouvir, hoje em dia, o tema “Rosalinda”, de Fausto, ainda sente a revolta portuguesa contra a criação de uma central de energia nuclear, na freguesia de Ferrel, em Peniche. O nuclear sempre foi um assunto polémico e, no final da década de 70, a população saiu à rua em sucessivos protestos.

“Em Ferrel lá p´ra Peniche
Vão fazer uma central
Que para alguns é nuclear
Mas para muitos é mortal”

O local escolhido pela Companhia Portuguesa de Energia para a construção da primeira central nuclear foi Ferrel, perto do Baleal. Mas o projeto não foi bem recebido pela população e a consternação estendeu-se durante anos. Um dos momentos mais marcantes foi a manifestação de 15 de março de 1976: mais de 1.500 populares foram em protesto até ao Moinho Velho, onde decorriam os trabalhos de construção da central.

O movimento ganhou visibilidade nacional e contou com o apoio de intelectuais, estudantes, professores universitários, ecologistas e até grandes nomes da música. Em 1978, nas Caldas da Rainha, realizava-se o Festival pela Vida contra o Nuclear, que contou com a participação como Zeca Afonso, Sérgio Godinho e Vitorino.

Mesmo depois de várias campanhas realizadas pela Companhia Portuguesa de Energia para convencer a população de que o nuclear era seguro, o projeto acabou por ser cancelado, em 1982. No mesmo ano, Lena d’Água cantava o tema “Nuclear, não obrigado”.

“Nuclear não, obrigado
Antes ser ativo hoje
Do que radioativo amanhã
Nuclear não, obrigado”

Em Ferrel, venceu a consternação popular. Carlos Fiolhais, professor de Física Teórica na Universidade de Coimbra e especialista em História da Ciência, considera que o fim do projeto nuclear dos anos 80 está relacionado, entre outros fatores, com os valores da Revolução do 25 de Abril, que aumentaram da importância da movimentação popular.

“Ajudou muito o 25 de Abril, o chamado poder popular. As pessoas podiam manifestar-se e isso tinha consequências”, lembra. Para além da mudança política e da importância da movimentação popular, acrescenta ainda a falta de dinheiro como uma das razões que levou ao arquivamento do projeto.

Construção de um reator para estudar o nuclear

O projeto nuclear já vinha desde o Estado Novo, décadas antes dos protestos de Ferrel. “Portugal começou a preparar-se desde 1951 para ter energia nuclear”, afirma Pedro Sampaio Nunes, ex-secretário de Estado da Ciência e Inovação e um apoiante da energia nuclear. Para iniciar este projeto, era necessário formar as pessoas e, “para isso, foi feito o reator nuclear em Sacavém, através de uma cooperação com os Estados Unidos”.

O Reator Português de Investigação, que foi gerido pelo Instituto Superior Técnico da Universidade de Lisboa, foi um primeiro contacto que Portugal teve o nuclear. Este reator servia apenas para efeitos académicos e de investigação, nunca teve qualquer intuito de produzir eletricidade.

Em 2019, o reator foi desmantelado, depois de ter parado atividade a 11 de maio de 2016. O acordo que tinha sido feito com os Estados Unidos e a Agência Internacional de Energia Atómica (IAEA, na sigla inglesa), em 2007, permitia que o reator português continuasse a trabalhar mesmo depois desse prazo, mas, para isso, Portugal passaria a ser responsável pelo tratamento dos resíduos nucleares que daí resultassem. Ao interromper atividade, os resíduos foram enviados de volta para os Estados Unidos, como estava previsto.

Para além disso, manter em atividade este reator iria implicar um investimento na sua manutenção, uma vez que a última inspeção realizada tinha identificado um conjunto de falhas a corrigir.

Um novo projeto nuclear

Depois de Ferrel, o projeto nuclear para Portugal ficou guardado na gaveta durante duas décadas. O acidente de Chernobyl contribuiu para uma estagnação do desenvolvimento da energia nuclear a nível mundial, principalmente por causa do medo.

Só em 2006 seria apresentada uma nova proposta. Este plano coincidiu com o disparo do preço do petróleo e pretendia criar uma maior autonomia na produção de energia em Portugal. Pedro Sampaio Nunes era um dos autores deste projeto.

“Eu achei que devia propor aquilo em que acreditava: recuperar o atraso que tínhamos em relação aos nossos parceiros ocidentais – somos dos poucos países que não tem energia nuclear – e tentámos trazer para Portugal essa tecnologia, essa forma de produzir energia que, na minha perspetiva, era mais barata, mais segura e mais limpa”, conta o ex-secretário de Estado.

O projeto foi apresentado e, durante vários anos, o grupo que o desenvolveu insistiu na sua concretização. Mas, mais uma vez, não saiu do papel.

De 2006 para cá, a produção energética mudou bastante em Portugal e a pergunta coloca-se: ainda fará sentido pensar em nuclear? “Deixou de fazer sentido, eu diria, há uns oito anos. Neste momento não faz sentido voltar a pôr a hipótese de energia nuclear em Portugal”, responde o ex-secretário de Estado.

Carlos Fiolhais partilha da mesma opinião e lembra que a criação de uma centra nuclear implica um avultado investimento. “A tecnologia é sempre cara para quem não a tem. Para Portugal é caríssimo”, sublinha o professor. O atual contexto energético do país também não convida à realização de um avultado investimento para a criação de uma central nuclear.

Rafael Marchante

Energia solar fotovoltaica, uma nova esperança

A paragem no setor da energia nuclear durante a década de 1990 levou a um maior desenvolvimento das energias renováveis – eólica, hidráulica e solar fotovoltaica. E Portugal não é exceção. Para Sampaio Nunes, como defensor da energia nuclear, a decisão portuguesa de não ter embarcado na onda energia nuclear foi uma oportunidade desperdiçada.

“Se tivéssemos conjugado [energia] nuclear com renováveis teríamos hoje, sem dúvida nenhuma, uma das bases de eletricidade mais baratas do mundo”, afirma.

Mas há uma nova esperança para Portugal: a energia solar fotovoltaica tornou-se mais barata e mais atrativa. A grande exposição solar, que resulta da posição geográfica do país, é um dos principais fatores que colocam Portugal como um país apetecível para os investimentos.

“Tivemos uma sorte recente: a evolução da energia solar fotovoltaica foi absolutamente espantosa. Houve uma redução de custos, em oito anos, de oito ordens de grandeza e Portugal tem muita radiação solar. Por isso, o solar fotovoltaico é uma enorme esperança para podermos ser outra vez alguém no mundo da produção da energia elétrica”, afirma o ex-secretário de Estado.

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Com o selo de energia limpa, a solar fotovoltaica representa também um investimento inicial muito mais pequeno do que as concorrentes – seja a nuclear, seja a própria eólica. Primeiro devido à descida nos custos e, em segundo lugar, por não ser necessário a criação de um grande campo de painéis solares para iniciar a produção – o investimento pode ser faseado e ir aumentando à medida que dá lucro. Para além disso, Sampaio Nunes destaca ainda a constância que existe na produção energética, uma vez que se sabe precisamente quais as horas do dia em há Sol para produzir eletricidade.

Enquanto a esperança na solar fotovoltaica cresce, os planos para o nuclear em Portugal permanecem fechados na gaveta, sem saber se algum dia voltarão a sair.