Ciclone Idai

Cruz Vermelha alerta para "bomba-relógio" de epidemias em Moçambique

TIAGO PETINGA

Há "risco elevado de doenças transmissíveis pela água", como a cólera, o tifo ou malária, que é endémica da região.

O secretário-geral da Federação Internacional da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho alertou hoje para a "bomba-relógio" de epidemias como a de cólera com que os sobreviventes do ciclone Idai se confrontam.

"Estamos sobre uma bomba-relógio", disse Elhadj As Sy, explicando que há "risco elevado de doenças transmissíveis pela água", como a cólera, o tifo ou malária, que é endémica da região.

Este risco é potenciado pelas águas estagnadas, falta de higiene, cadáveres em decomposição e promiscuidade nos centros de acolhimento de sobreviventes que ficaram desalojados, acrescentou.

O secretário-geral da Federação Internacional da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho (IFRC, na sigla em inglês) falava, durante um encontro com a imprensa, nas Nações Unidas, em Genebra.

Com o balanço de vítimas do ciclone a ultrapassar os 700 mortos, nos três países, os trabalhadores humanitários reforçam as equipas de apoio aos sobreviventes no terreno, sobretudo em Moçambique, país mais afetado.

Elhadj As Sy, recentemente regressado de Moçambique, adiantou que, dez dias depois de o ciclone Idai ter atingido aquele país, continua a haver necessidades urgentes em matéria de higiene, água potável e saneamento.

O governo moçambicano já identificou alguns casos suspeitos de cólera, mas ainda não foram confirmados, segundo Elhadj As Sy, estimando que uma epidemia em grande escala desta doença não seria surpreendente.

"É por esta razão que faço soar o alarme. Muitas destas doenças representam um grande risco, mas podem ser evitadas", sublinhou.

A Federação Internacional da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho anunciou hoje a chegada a Moçambique de uma Unidade de Resposta de Emergência que irá disponibilizar cuidados médicos a 20 mil pessoas diariamente.

Uma nova equipa de emergência, que irá fornecer água potável diariamente a 15 mil pessoas, deverá chegar ao país nos próximos dias.

Estão também a caminho de Moçambique dois hospitais de campanha com capacidade para fornecer serviços médicos, incluindo cirurgias de emergência, a pelo menos 30 mil pessoas.

Ainda hoje sairá de Genebra um avião com uma equipa de logística de emergência para assegurar que os donativos em bens são recebidos, encaminhados na alfandega e transportados para o destino pelos voluntários da organização.

A IFRC elevou, entretanto, de 10 milhões (8,9 milhões de euros) para 35 milhões de francos suíços (cerca de 31 milhões de euros), o pedido de ajuda de emergência.

De acordo com a organização, estes fundos irão permitir apoiar a Cruz Vermelha de Moçambique no fornecimento de ajuda de emergência a 200 mil pessoas nos próximos 24 meses.

De acordo com as Nações Unidas, o ciclone Idai afetou 1,85 milhões de pessoas em Moçambique, estimando-se que mais de 480 mil tenham sido desalojadas pelas cheias que submergiram e destruíram uma área de mais de 3.000 quilómetros quadrados.

A passagem do ciclone Idai em Moçambique, no Zimbabué e no Maláui fez pelo menos 762 mortos, segundo os balanços oficiais mais recentes.

Em Moçambique, o número de mortos confirmados subiu hoje para 447, no Zimbabué foram contabilizadas 259 vítimas mortais e no Maláui as autoridades registaram 56 mortos.

Lusa