Ciclone Idai

Programa Alimentar só tem um quinto da verba necessária para 1,7 milhões de pessoas em Moçambique

ANDRÉ CATUEIRA

O programa mundial distribui o cabaz básico aos habitantes mais afetados pelo ciclone.

O coordenador de emergência do Programa Alimentar Mundial (PAM) alertou hoje que 1,7 milhões de moçambicanos afetadas pelo ciclone Idai vão precisar de alimentos nos próximos meses, contando aquela organização com apenas um quinto das verbas necessárias para tal.

"Nós precisamos de 130 milhões de dólares (115 milhões de euros) nos próximos três meses para alimentar 1,7 milhões de pessoas que foram afetadas e só estamos financiados a 20%", disse Pedro Matos, coordenador de emergência do PAM, em declarações à agência Lusa.

Um mês depois da passagem devastadora do ciclone Idai por Moçambique, o PAM já levou apoio a um milhão de pessoas nas províncias de Sofala, Manica, Tete and Zambezia, distribuindo 400 toneladas de alimentos por dia.

A ajuda de emergência ao Idai representa cerca de 5% do orçamento do PAM, organização que trabalha em 84 paises e alimenta 94 milhões de pessoas por dia.

Contudo, "o dinheiro não está a chegar", segundo o responsável do programa das Nações Unidas, indicando que o PAM só recebeu ainda 27 dos 130 milhões de dólares de que precisa para alimentar a população, lamentou o responsável.

O PAM foi criado em 1961 e é financiado integralmente por contribuições de estados e indivíduos.

"Todos os anos começamos do zero e cada vez que aparece uma emergência temos de ir à procura de dinheiro", explica Pedro Matos, sublinhando que o PAM gere um orçamento anual de 7.000 milhões de dólares (6.200 milhões de euros) para múltiplas emergências: "num mundo que tem a Síria, o Iémen, o norte da Nigéria e o Sudão do Sul, o dinheiro não estica", disse.

Do cabaz básico que está a ser distribuído aos afetados pelo Idai, preparado para fornecer 2.100 calorias por pessoas, fazem parte hidratos de carbono, normalmente arroz ou milho, leguminosas como feijões ou lentilhas, cereais, óleo e sal.

Os cabazes são distribuídos a cada 15 dias, "até a situação estabilizar", passando depois para uma frequência mensal.

"As pessoas que não conseguirem plantar vão receber isto durante um ano", adianta o coordenador do PAM.

Mas, se não for obtido o financiamento necessário, a quantidade de alimentos distribuídos será reduzida.

"Se só recebermos 80% das contribuições só damos 80% da comida, se calhar daqui a seis meses vamos estar a dar, em vez de 2.100 calorias, 1.600 ou 1.300", admite.

Por vezes são entregues senhas ou dinheiro aos habitantes para que possam adquirir os produtos alimentares nos estabelecimentos locais, e assim dinamizar a economia local.

Quando "os mercados estão a funcionar" e são restabelecidas as cadeias de abastecimento, o PAM substitui os alimentos por dinheiro ou senhas, contribuindo para reanimar a economia local.

Segundo Pedro Matos, na Beira, centro de Moçambique e principal região afetada pelo Idai, está a ser aplicada "uma solução de mercado, intermédia", mediante acordos com lojistas e distribuiçao de senhas que podem ser trocadas por alimentos.

O PAM distribui também sementes para que as pessoas possam produzir os seus próprios alimentos e Pedro Matos salienta que é preciso desmistificar a ideia de que as pessoas mais pobres ou afetadas por catástrofes "são incapazes de fazer qualquer coisa ou produzir qualquer coisa".

Após a situação de emergência imediata, os alimentos são encaminhados para pontos de distribuição e entregues às famílias que constam das listas.

Mas Moçambique ainda não está nessa fase.

"Ainda não temos centros de distribuição estruturados. Fazemos uma estimativa das pessoas da aldeia, chegamos de helicóptero, deixamos os alimentos e seguimos para outra aldeia. Estamos a querer chegar ao máximo de pessoas possível", conta o funcionário humanitário.

A distribuição é delegada nos líderes das comunidades locais.

São eles os responsáveis por assegurar que a ajuda é bem entregue e chega a quem precisa.

Esta "ponderação entre chegar ao máximo de pessoas ou ficar mais tempo nos sítios para controlar melhor a distribuição é um grande dilema", admite Pedro Matos.

O coordenador de emergência chegou a Moçambique em setembro, para preparar a época de emergências (que decorre, neste país africano, entre setembro e abril), que envolve estimativas de pessoas afetadas, angariação de fundos e pré-posicionamento de abrigos e alimentos.

Mas apesar da preparação, ninguém consegue adivinhar a escala das catástrofes naturais.

A 15 de março, dia seguinte à chegada a terra do Idai, "só tinha chegado o vento e a situação não parecia tão má", recorda.

A falta de comunicações e de eletricidade que deixaram a Beira num "buraco negro" não permitiram perceber logo a dimensão do desastre.

"Só no sábado começaram a chegar informações de que havia estradas interrompidas por uma cheia tão violenta que se dizia que tinha rebentado uma barragem", recorda o coordenador do PAM.

"Uma semana de chuva em que choveu por dia aquilo que chove anualmente naquelas zonas" fez transbordar os rios e provocou uma enxurrada que "veio por aí abaixo" inundando uma área de 130 quilómetros, obrigando a ajustar as prioridades.

"Aí percebemos que tínhamos de mudar completamente a resposta. Já não estávamos a responder nem a ventos nem a pessoas em cima das árvores, a emergência foi sempre escalando de patamar e fomos mudando as prioridades", relata Pedro Matos.

A emergência já passou e aos poucos o Idai irá deixar de estar sob os holofotes mediáticos, mas a população afetada não vai esquecer tão cedo a sua passagem devastadora.

Lusa

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