Coronavírus

Por estes dias #dia 4

Sarajevo, 6 de julho de 1992 - Uma mulher segura retratos de família num dos muitos centros de refugiados

Corinne Dufka

O violinista de Serajevo

Especial Coronavírus

As imagens que nos chegam destes dias, desta estranha forma de vida, lembram-me um extraordinário romance, «O violinista de Serajevo».

A obra, de ficção, parte de um episódio real: a 27 de Maio de 1992, às quatro da tarde, uma série de morteiros atingiu um grupo de pessoas que esperava, em fila, para comprar pão.

Morreram 22 pessoas e mais de 70 ficaram feridas.

Porque esperavam numa fila, para comprar pão, num dos momentos mais terríveis da história da segunda metade do século passado.

O cerco e isolamento de Serajevo, capital da Bósnia, durou quase quatro anos, entre 5 de Abril de 1992 até 29 de Fevereiro de 1996.

«O violinista de Serajevo»,além de extraordinariamente bem escrito, é um romance onde se cruza a vida de três personagens com o homem do violino.

Não vou revelar mais nada sobre a história, porque vale a pena comprar e ler.

(comprar, não descarregar de um qualquer site sem proteger os direitos de autor).

Estive em Serajevo um ano e pouco depois do fim da chamada Guerra da Bósnia, ou Guerra dos Balcãs.

O primeiro sinal de «normalidade» era (voltar a haver) vidros nas janelas.

Durante quatro anos, os vidros tinham desaparecido e dado a lugar a madeira; os tiros estilhaçaram os vidros e, além, disso, a visibilidade para dentro das casas era uma forma de chamar a atenção dos snipers, naquela que ficou conhecida como a avenida dos snipers.

Havia vidros, gruas para a reconstrução de casas mas também arame farpado a delimitar zonas minadas, como se fossem canteiros de relva e prédios inteiros que não nos deixavam esquecer, por força dos buracos nas paredes, a violência do conflito.

Mas Serajevo tinha voltado à vida, ao trânsito, ao caos, aos cafés cheios de gente.

Por estes dias, ao ver artistas a dar concertos a partir da varanda, lembrei-me do violinista.

Estamos isolados, é certo.

Estamos em guerra, embora não seja como a dos balcãs.

Mas não estamos sozinhos.

Temos sempre a palavra, a música, os concertos à varanda e os pequenos gestos que nos arrepiam e nos fazem ver o que, de facto, importa.

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