Coronavírus

O ano da morte do Manel “da Mala”

© Tim Wimborne / Reuters

Morreu sem fazer o teste e foi sepultado sem velório e em urna fechada.

Especial Coronavírus

Nem os meus olhos e, talvez, nem mesmo o meu cérebro tinham acordado totalmente, quando a missão do dia me levava a Vila Nova de Foz-Côa. A Primavera não devia saber mesmo da pandemia ou não se teria vestido tão cedo de flores brancas que se avistavam do IP2 a caminho de mais uma tragédia. Um idoso de 92 anos tinha testado positivo para coronavírus e o lar onde vivia há pouco mais de um ano, tombava na angústia e na incerteza do simples contacto poder induzir em mais vítimas. Amanhã, depois de amanhã ou um dia destes, em fase de propagação comunitária Vírus maldito!

Mas o rastreio de quase uma centena de pessoas que não tinha data e o equipamento individual de proteção que ameaçava acabar a qualquer momento. Era a caminho deste inferno que seguia a equipa de reportagem da SIC na Guarda. A Primavera que nos tocava de longe nas bermas de mais uma história chocante também não devia saber, mas a viagem entre amendoeiras em flor, haveria de ficar marcada pela notícia que não levava na bagagem.

Ainda sem o contacto do Provedor da Santa Casa da Misericórdia, resolvi pedir ajuda ao antecessor na função que conheci há anos, ainda na liderança da Câmara de Foz-côa. Ao primeiro sinal de chamada, o Eng. António Gouveia acordava a minha indolência com o sorriso aberto de sempre. Como se nos tivéssemos visto no dia anterior e pudéssemos trocar saudações sem as restrições do momento. Mas era um telefonema e a distância social estava garantida sem que ambos a sentíssemos. E que tempo vivemos, para onde vamos e quem sobreviverá. Perguntas e mais perguntas a fazer o prelúdio da conversa.

Meses depois, muitos meses mesmo ou anos depois de nos termos encontrado pessoalmente no Lar de Nossa Senhora da Veiga que, à data, acolhia a enigmática figura do Manel da Mala. Era afinal um indigente que tinha sido atropelado no Pocinho e que a Santa Casa decidira dar guarida. Sem saber o seu nome, quem era, de onde vinha e que vidas encobria. Tanto que a Polícia Judiciária chegou a ser chamada para fazer recolha de ADN na tentativa de identificar tão estranha figura. Sem sucesso por falta de padrão. Recordo que mal falava, que tinha um sorriso aberto e sempre esperava que alguém lhe desse um cigarro. Mas nem as baforadas de fumo que soprava sofregamente confirmavam se era mesmo do norte, se tinha matado um peão quando conduzia uma viatura dos bombeiros, se tinha simulado amnésia para se afastar da família e da vida que tinha. Nada.

A única certeza era que um dia tinha chegado a Torre de Moncorvo e por lá tinha ficado. E, sempre que a banda filarmónica saía da terra para atuar fora, o Manel apanhava boleia. Com a mala das partituras na mão. Era acarinhado por todos, mas nunca ninguém lhe terá ouvido uma palavra sobre o que tinha deixado para trás. Nem lá, nem no Lar que lhe abriu a porta. Sem mala.

Ao ouvir de novo a voz do Eng. Gouveia, não pude deixar de perguntar como estava o homem que andaria perto dos cem anos, mas a quem nunca ninguém fez uma festa de aniversário por falta de bilhete de identidade. “ Nem me fale. Morreu ontem e hoje é o dia do funeral”. Mas morreu infetado? Perguntei, ainda sem conseguir digerir a notícia. “ Não tinha sintomas mas quem sabe?”. Pois não. Morreu sem fazer o teste e foi sepultado sem velório e em urna fechada. E pior que isso, sem uma lágrima da família. O Manel nunca falou se existia e nem o pretenso filho alguma vez apareceu. A Primavera também não deveria saber que ia ser assim, mas o Outono chegou ao mesmo tempo e, por muito que nos custe, confundiu as estações. Adeus Manel!

  • 380 mortos e mais de 13 mil casos de Covid-19 em Portugal

    Coronavírus

    O último balanço da DGS dá conta de 380 mortes e 13.141 casos de Covid-19 em Portugal. São mais 35 óbitos e 699 infetados em relação a ontem. A região Norte continua a ser a mais afetada, com 7.386 casos e 208 vítimas mortais. Há mais doentes internados mas menos casos em Unidades de Cuidados Intensivos, uma redução que se regista pela primeira vez desde o início da pandemia. Siga aqui ao minuto as últimas informações.

    Direto

    SIC Notícias

  • Especialistas dizem que contenção está a resultar em Portugal
    3:31