Coronavírus

Experiência do alpinista João Garcia ajuda a superar o isolamento

facebook.com/joaogarciaalpinista

Português utiliza analogias entre a pandemia e o montanhismo para ajudar as pessoas a aguardar o fim da pandemia.

Especial Coronavírus

A experiência nas expedições às montanhas mais altas do mundo está a ajudar o alpinista João Garcia a aguardar "sereno" pelo final da pandemia de covid-19, apesar de prever um tempo de espera "bem mais longo".

O primeiro português a atingir o pico do monte Evereste, em 1999, admitiu hoje à agência Lusa que "quem espera 11 dias numa pequena tenda que passe uma tempestade" para continuar até ao cume está mais habituado ao isolamento e sublinhou que o mais importante neste período é estar preparado para as oportunidades que irão surgir no final da crise.

"Faz parte das qualidades de alpinista, que se cultivam e treinam ao longo de muitos anos. Sei que há uma série de aspetos que não controlamos e temos de estar preparados para quando surgir a oportunidade não a desperdiçarmos", explicou o montanhista.

O décimo de 19 alpinistas mundiais que escalaram as 14 montanhas com mais de 8.000 metros de altitude, sem recurso a oxigénio artificial, dedica-se agora a guiar grupos em visitas a montanhas e a dar palestras motivacionais, duas áreas que sofreram uma paralisação quase completa após o início dos apelos ao isolamento social.

Crise porvocada pela pandemia no setor do turismo será "terrível"

No que diz respeito ao setor do turismo, onde está envolvido como guia profissional, assume que a crise provocada pela pandemia de Covid-19 será "terrível".

Já quanto às palestras, acredita que as empresas vão precisar "novamente e cada vez mais de exemplos de superação" como o seu.

"Cada dia que passa é um 'prego' sobre este estigma que se amplifica e vai ficar na cabeça das pessoas. Voar vai ser o grande estigma e será necessário o quíntuplo do tempo que isto durar para que as pessoas consigam derrubar esta barreira", estimou João Garcia.

Para ajudar as pessoas a ultrapassar a crise, o lisboeta prefere estabelecer analogias com o alpinismo, por ser a área da qual percebe e na qual lhe reconhecem "credibilidade".

E o que lhes diria é que "a montanha não é um obstáculo, é mesmo o caminho".

"Se agora surgiu esta dificuldade, faz parte. É preciso aprenderem as regras do jogo e sobretudo não desaprender. Quando estivermos a descer, se deixarem de lavar as mãos e voltarem aos grandes contactos, o vírus volta a espalhar-se. É normal cometer erros na primeira vez, não é normal repeti-los", apelou o Comendador da Ordem Honorífica Portuguesa do Mérito.

E num momento em que "o pico" da curva do gráfico de infetados pela pandemia de Covid-19 está bem presente nas preocupações dos portugueses, o alpinista sublinhou que a escalada é bem diferente do que se passa nas expedições ao pico das montanhas.

"As montanhas requerem um período de adaptação do organismo. É uma subida muito lenta, com eventuais descidas e subidas até chegar ao cume. Depois, a descida é à bruta e esta descida (da curva do gráfico da pandemia) tem de ser exatamente o oposto. Se dermos passos maiores do que a perna, haverá uma recaída", comparou.

O montanhista, de resto, encontrava-se nos Pirenéus, na zona de Aragão, em Espanha, após guiar um grupo turístico durante uma semana, e tomou a iniciativa de regressar antes do tempo ao aperceber-se da escalada da pandemia.

A viagem foi feita de carro, ao longo de mais de 1.200 quilómetros, uma semana antes do retomar dos controlos fronteiriços entre Portugal e Espanha, uma medida que considera que "devia ter acontecido mais cedo".

"De forma autodidática, preocupei-me em voltar para casa sem me cruzar com ninguém e abastecendo de combustível nas bombas com pagamento automático. Passei pela fronteira como se nada se passasse, numa altura em que a situação em Espanha já era grave", testemunhou.

Acompanhe aqui ao minuto toda a informação sobre a pandemia da Covid-19