Coronavírus

Diário de uma jornalista entre a peste e a esperança

Armando Franca

Julgava que os incêndios de Pedrógão em junho de 2017 tinham sido a mais dramática das experiências profissionais.

Especial Coronavírus

Caminhava sozinha na cidade que me viu nascer. Ou talvez não tão sozinha assim. Quis revisitar os lugares de todos os dias e fui tropeçando numa espécie de jogo que obriga a descobrir as diferenças. O momento não era lúdico, mas fazia companhia à minha condição sobressaltada. Como se o barco estivesse a naufragar e nada mais me ocorresse do que ver o que ainda não tinha visto. Na Praça Luís de Camões, a que insistentemente apelidamos de Praça Velha, dou conta de uma porta a fechar. A pastelaria Orquídea onde há muitos anos atrás, tomava café às cinco da madrugada e acordava para a vida na minha amada Rádio, tinha apagado a luz. O dono, acompanhado da mulher e da filha, preparava-se para sair de mansinho e ficar em casa. Viu-me e esboçou um sorriso triste. Encolheu os ombros por que os dias, em pleno estado de emergência, não cabiam nas palavras. Estava todos bem de saúde e só isso, era muito mais do que tinha pedido para fazer este intervalo e prosseguir amanhã ou depois. Ou quando a planáltica curva da pandemia deixar.

A cidade era a “Casa Quieta” do Rodrigo Guedes de Carvalho. Os avós deste pedaço de chão tombavam no Hospital da Guarda, às mãos de um vírus caprichoso, e, os sobreviventes tinham varrido as ruas, antes que o bicho pudesse escolher outros hóspedes. Mas a esperança de ensaiar os primeiros retratos deste ano bissexto, à direita da nossa frágil existência, forçou-me a subir meia dúzia de degraus. Espreitei o restaurante da Alameda, à entrada do Parque da Saúde. Era, na hora, o balcão de um homem só. De bicas curtas e desalento. As refeições para fora eram maquilhagem que borrava a pintura e não pagava salários aos funcionários. Nem a si próprio que escolhera ser sócio-gerente e ficara sem manual de sobrevivência. “Fique em casa”, repetia ali uma televisão que sem plateia, não chegava a disfarçar tanta ausência ruidosa.

Voltei à rua. Há filas à porta da farmácia mas já ninguém precisa de dar duas voltas ao quarteirão para fisgar um lugar de estacionamento. O apagão é maior do que alguma vez pudéssemos intuir. Nem bom dia, nem boa tarde, na cidade pequena onde todos se conhecem e a noite caiu. Dou-me conta que me faz falta cruzar o aceno aristocrático do senhor Guerreiro e de me interrogar como estarão os seus mais de oitenta anos sem os passeios do costume. E bate-me o pensamento, necessariamente inquietante de que, sabendo de quem é pai, desconheço o que fez na vida ativa e como olha o mundo. Na ânsia de andar como se não houvesse amanhã, damos relevo ao chefe que garante não tomar partido e toma e ao infeliz que guarda para nós tudo o que é mau com muito “carinho”, mas ignoramos a bondade do vizinho ou o coração que chora porque o infortúnio lhe bateu à porta.

Contam-se os casos que confirmam a bomba Covid19 nos lares de idosos e nas famílias, mas os números não aparecem no boletim diário da Direção-Geral de Saúde. Onde é que estão refletidas as dezenas de casos de Foz-côa e as preocupações de Pinhel, Gouveia, Aguiar da Beira, Celorico e Seia? O idoso que visitava o irmão no lar e, contagiado, segura a vida num ventilador. Os dois carteiros, pai e filho que, sem querer, entregaram a carta doente ao mais pequenino da casa. A mulher cardíaca que chega a uma área dedicada (ADC) com febre e tosse e morre logo ali, sem apelo nem agravo. Traída por um coração frágil deve ser excluída das mortes Covid, mas, salvo os 4 casos identificados no concelho da Guarda, nada mais existe para a DGS. Mas existe e fala com voz embargada. Julgava que os incêndios de Pedrógão em junho de 2017 tinham sido a mais dramática das experiências profissionais, mas agora hesito. já não sei. E talvez não saiba enquanto se vive um dia de cada vez com medo de paralisar no dia seguinte.