Coronavírus

Médico português nos EUA dá conta do medo sentido pelos profissionais de saúde

O desespero de uma funcionária de um hospital de Nova Iorque, sentada próximo do Central Parque. O governador do estado nova-iorquino apelou a todos os profissionais de saúde para ajudarem as autoridades a controlar o número de caso de Covid-19.

Jeenah Moon/ Reuters

Carlos Correia é médico de família em Fall River há 25 anos.

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Médico português há mais de 25 anos nos Estados Unidos da América (EUA), Carlos Correia disse à Lusa notar “um certo medo” no pessoal do consultório onde trabalha, provocado pelo risco de infeção de médicos no tratamento da Covid-19.

Carlos Correia, antigo estudante de Medicina de Coimbra, vive nos EUA há mais de 50 anos e tem uma carreira de médico de família em Fall River há 25 anos. Trabalha em regime ambulatório, com consultas fora do hospital, transformadas nesta altura em consultas telefónicas.

As novas medidas adotadas nos EUA para conter o contágio do novo coronavírus vieram alterar o ambiente rotineiro no consultório do luso-americano e trouxeram preocupações especiais aos profissionais de saúde, “inclusivamente médicos novos”, conscientes do perigo.

Uma base de dados do jornal The Boston Globe indicava, em 2 de abril, que existiam 509 trabalhadores infetados nos maiores hospitais do estado de Massachusetts, numa subida acentuada dos 177 conhecidos uma semana antes.

O consultório de Carlos Correia recebe poucos pacientes por esta altura, realizando as consultas de saúde por telefone, as chamadas “televisitas”, para manter as pessoas o mínimo tempo possível fora de casa.

“Raramente temos um doente a vir ao consultório, porque fazemos a maior parte das consultas através do telefone. Só se realmente for um doente que temos de examinar, desde que não sejam queixas respiratórias”, explicou Carlos Correia.

Os doentes com queixas respiratórias nesta altura estão a ser direcionados para outros locais, para se evitar que entrem em contacto com outros doentes ou pessoal médico do consultório.

“O perigo é que uma pessoa nunca sabe quem é que tem [o vírus], por isso quase que tem de lidar com toda a gente como possível infetado. Isso é o que torna praticar medicina muito difícil agora, porque a qualquer pessoa com qualquer sintoma respiratório, tem de se pôr logo a hipótese de ser um caso de Covid-19”, disse o médico.

Ainda assim, os profissionais asseguram-se de que “as condições médicas dos doentes continuam a ser tratadas e que [os pacientes] respeitam as mudanças e continuam a ter os medicamentos necessários para as suas patologias, embora só se fale de uma doença neste momento”.

A dificuldade de acesso aos cuidados de saúde para partes da população que não têm seguro nos EUA é “uma vergonha” e “um grande problema” para o médico luso-americano, que considera que a educação e a saúde são os “grandes pilares” da sociedade e direitos básicos de todos.

“Sou naturalizado americano, considero-me um português americano, mas sei que é uma mancha negra neste país, especialmente para mim que estou envolvido na saúde e acho que isso é um direito de todas as pessoas”, declarou Carlos Correia, acerca da falta de cobertura nacional de cuidados de saúde.

No inverno, os EUA enfrentam muitos casos de gripe que causam mortes e que podem levar hospitais a chegar à capacidade máxima, com filas nas urgências e espera para camas de internamento.

Comparada com o surto da gripe no inverno, a Covid-19 é “um surto muito maior, muito mais rápido e muito mais condensado”, considerou o luso-americano.

Há mais de um século que não havia um caso tão grave como a Covid-19, disse o médico, referindo a pandemia de gripe de 1918, chamada “gripe espanhola” nos EUA.

Segundo a autoridade nacional de saúde nos EUA, o Centro de Controlo e Prevenção de Doenças (CDC), estima-se que 500 milhões de pessoas tenham sofrido da doença, cerca de um terço da população mundial no fim da I Guerra Mundial, e pelo menos 50 milhões de mortos.

Carlos Correia acrescentou que a Covid-19 “é um caso que está a ultrapassar todas as barreiras”, apesar de já se ter previsto que uma pandemia pudesse acontecer também no presente.

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