Coronavírus

Onde começa o dever de defender a saúde pública e termina o direito à liberdade religiosa?

Carlos Barria

Igreja fora do plano de combate ao coronavírus em vários estados norte-americanos

Especial Coronavírus

Numa altura em que a Igreja celebra o período da Páscoa, o The Guardian relata a dificuldade que as autoridades norte-americanas têm enfrentado, na tentativa de impedir que sejam realizadas as cerimónias. O que está a acontecer no estado da Flórida é exemplo disso mesmo.

Na semana passada, depois de ter sido preso por ter levado adiante o culto religioso, um pastor afirmou que estava a ser vítima de um Governo tirânico.

Depois disso, Ron DeSantis, Governador estadual, republicano, acabou por determinar que os serviços religiosos passassem a ser considerados como atividades essenciais.

"Não acho que o Governo tenha autoridade para fechar uma igreja. Certamente não vou fazer isso", disse DeSantis. "Na época da Páscoa, as pessoas vão querer ter acesso a serviços religiosos."

A reação às regras impostas pelas autoridades de saúde pública do país, não só não foi ato isolado, como tem vindo a crescer nos últimos dias.

Greg Abbott, governador do Texas, assinou mesmo uma ordem onde designou os serviços religiosos como "essenciais", remetendo para as paróquias a decisão de celebrar ou não o culto.

E os exemplos repetem-se um pouco por todo o país: Delaware, Louisiana, Michigan, Mississippi, New Hampshire, Tennessee e Virgínia Ocidental, juntam-se à lista.

De acordo com o The Guardian, quase todos os estados norte-americanos, que ocupam lugares cimeiros em número de infectados com o coronavírus, têm previstas excepções ao confinamento obrigatório para os encontros de carácter religioso.

O jornal não adianta se há ou não muitos crentes a participar nas cerimónias.

Mas, online, uma carta aberta de um grupo de teólogos que se autodenomina Povo da Páscoa, enviada aos bispos católicos, com um apelo à manutenção do acesso às missas e sacramentos, tem vindo a ganhar cada vez mais força.

"Algo está terrivelmente errado com uma cultura que permite que clínicas de aborto e lojas de bebidas permaneçam abertas, mas fecha os locais de culto", defendem.

O fenómeno já levou o Centro para o Progresso Americano, um grupo de especialistas em políticas públicas, a publicar um estudo sobre o que está a acontecer nestes estados.

Uma realidade que entendem revelar uma "tendência alarmante", num país onde o número de óbitos devido ao Coronavírus representa 14% do total de mortes no mundo.

Até aqui, os Estados Unidos da América contabilizaram já mais de 10 mil vítimas mortais, causadas pela pandemia. Um número só ultrapassado pela Itália e pela Espanha.

Em Portugal, está previsto que a Páscoa decorra sem qualquer celebração comunitária de missas, procissões e outras manifestações de devoção popular, como recomendou a própria Santa Sé.

O Santuário de Fátima vai, pela primeira vez, celebrar a Semana Santa à porta fechada, sem peregrinos. Mas o fiéis vão poder assistir à cerimónia através do canal da plataforma youtube.