Coronavírus

Uma festa estranha

Festa Estranha Facebook

Ana Geraldes

Ana Geraldes

Jornalista

Não, não é esta Páscoa. Aconteceu há quase 2 meses. Num domingo como este. Num bairro de uma Lisboa envelhecida, a despontar com o impulso de novos negócios - esses "estranhos" de gente estranha à vizinhança - uma população residente há anos em prédios centenários e de comércio tradicional.

Especial Coronavírus

Esse que agonia com as "crises", mas que é capaz de resistir com a força da proximidade. Ser vizinho é estar lá.

Dos "estranhos" que abriram as portas a "brunches" paredes meias com os "snack-bar" e ocuparam os vazios, devolvendo a vida ao bairro - a vontade de voltar a ir à rua, espreitar por curiosidade, saber o que há de novo - partiu a ideia de mostrar que não vieram para se impôr mas para se integrar.

Eu disse que era um bairro envelhecido, lembram-se? Pois, pelas colinas de becos e travessas de chão de paralelepípedo habituaram-se a ver as voltas da uma carrinha da paróquia. Refeições para 36 idosos em apoio domiciliário, além dos 25 do centro de dia. "E se tivessem outra carrinha?", "que tal fazer uma festa?", à moda antiga - com quermesse, uma aparelhagem de som e músicos sentados num banquinho em frente a um microfone, bolos e uma caixinha de donativos - instalou-se no adro da Igreja.

Não é o meu bairro. Mas tornei-me visita de muitos dias e a gostar de ali ficar, ao fim da tarde, na esplanada de uma das mercearias modernas. Foi lá que vi o cartaz. A "festa estranha?" "Vem! É para celebrar o convívio, para não sermos tão desconhecidos um dos outros, para sermos mais sociais". Para sermos mais do que a indiferença do contacto urbano, para sermos mais do que o convencionar bom dia, para cuidar dos mais próximos.

Festa Estranha Facebook

Fui. Há quanto tempo não desenrolava rifas. Numa Lisboa tão cosmopolita, seria estranho o espírito de aldeia não fosse absolutamente natural entre as pessoas. Como autênticos vizinhos. Voltei à mercearia depois disso. Ainda antes de terem entrado em serviço de take-away, de terem arranjado uma motorizada e de terem informado que iriam distribuir comida a casa dos mais velhos vizinhos, que quem soubesse de alguém a precisar, que dissesse.

Substituiram o quadro de giz de "estamos abertos à hora do lanche" com as regras de distanciamento, atendem à distância. Continuam a receber entregas dos produtores e de portas abertas no bairro.

Mandei mensagem: "posso encomendar e passar a levantar?" O Tiago respondeu: "grato pelo apoio". Confesso que o atendimento por WhatsApp é estranho. "Não temos... pode ser antes...?" "De 500 gramas é esse que pretende". Mas sempre se acerta, mesmo quando não era aquilo que queríamos inicialmente.

Levanto os sacos de papel, troco os sorrisos que acho que se merecem continuar a oferecer, lá porque não podemos estar próximos não impede, e os obrigada e até à próxima. Quando a esplanada de madeira recolhida, onde costumava ficar à conversa, às vezes por aí fora, até já terem fechado para clientes (sem nunca, mas nunca me terem dado sequer a entender que tinha que ir embora) voltar a ser colocada à porta para que os estranhos ao bairro se juntem à vizinhança, o que só faz sentido se deixarmos algo de nós para eles também.

A "Festa estranha" não conseguiu angariar todo o dinheiro para comprar mais uma carrinha para a assistência paroquial. Mas promete continuar a manter o fundo de caridade e, um dia destes, quando no adro os vizinhos puderem voltar a sair, fazer outra festa.

P.S. - Cresci numa rua onde a entreajuda entre vizinhos nem sequer se questionava. Saltava o muro do lado, atravessava a estrada e entrava na porta em frente como se fosse a da minha casa, de portão aberto para receber aqueles que eram também nossos porque nos querem bem. Havia uma mercearia antiga, de portas de madeira e balcão de mármore.

A loja da "menina Amélia" que nos atendia cm voz calma e um olhar doce. Já era uma senhora viúva e avó, mas não tinha outro nome para nós.

A "menina Amélia" morreu esta Páscoa. Tinha 92 anos. Não lhe guardo outra imagem se não a da loja, uma recordação bonita e de infância feliz. Felizmente que a mercearia da rua - há já muitos anos, diga-se - continua a existir.

Com o nome da dona atual, que se desdobra nestes dias num atendimento em encomendas e entregas naquela rua que eu conheço e a que não irei nesta Páscoa sentir o cheiro a arroz doce, os gritos de "bons dias" que me são familiares e os abraços que conhecem o crescimento do meu corpo. Felizmente que sei que os vizinhos estão lá.