Coronavírus

A saúde da moral

Evgenia Novozhenina

O custo de internamento, testes e exames de cada doente que se apresente com sintomas ou com a doença fica a cargo do Estado. Como? Isso mesmo. Tal como está a ler, assim ouvimos na reportagem da SIC.

Especial Coronavírus

No Jornal da Noite, anuncia-se a intenção de os hospitais privados apresentarem a fatura de doentes com Covid-19 ao Serviço Nacional de Saúde. O jornalista Pedro Coelho fez perguntas e obteve respostas. O custo de internamento, testes e exames de cada doente que se apresente com sintomas ou com a doença fica a cargo do Estado. Como? Isso mesmo. Tal como está a ler, assim ouvimos na reportagem da SIC.

Hospitais privados que se preparam para a pandemia, não só porque ela pode atingir os seus habituais doentes de consultas, tratamentos e cirurgias, e é preciso estarem à altura da situação, mas porque esperam que seja o Estado a pagar a fatura. A ideia é que alguém que apresente num hospital privado sinais ou diagnóstico do corona vírus fique dispensado do encargo com a seguradora, como habitualmente em todas outras situações, de todas as outras doenças.

Quando o jornalista faz a pergunta necessária: - "Isso não representa uma sobrecarga para o Serviço Nacional de Saúde e uma desresponsabilização das seguradoras?" Não, é a resposta. E mais, também não há preços especiais só porque isto é um flagelo que assolou o mundo. Não, não, os preços mantêm-se.

Os privados habituaram-se a ganhar e disso, pelos vistos, não estão para abdicar nem numa situação excecional.

Durante décadas, sucessivos governos permitiram e promoveram até vários abusos no Sistema Nacional de Saúde, a começar por nomeações políticas para as administrações dos hospitais em vez de só os mais competentes, os mais conhecedores, os melhores gestores para esses lugares.

Sucessivos governos fecharam os olhos àqueles que estavam só nas consultas ou nas cirurgias metade do horário, na maioria dos casos de manhã, porque no resto do dia tinham de ir para os seus negócios privados, para onde muitas vezes encaminhavam os mesmos doentes que atendiam nos hospitais públicos, onde tinham de esperar por vezes até morrer.

Sucessivos governos fecharam os olhos a desvios de material, equipamento, contas astronómicas e descontroladas de medicamentos.

E depois surgiram as PPP - negócio extraordinário em que o risco estava coberto pelo Estado - e surgiram os hospitais privados e as seguradoras. Os médicos de todas as especialidades foram debandando dos hospitais públicos onde aprenderam, onde tiveram as melhores hipóteses de se tornarem bons naquilo que fazem. Não resistiram a consultórios mais confortáveis, melhores equipamentos de tratamento e diagnóstico, corredores a cheirar a novo, mobiliário moderno. Melhor organização. E melhores salários obviamente.

A saída para os privados chegou ao ponto de quem vai hoje às urgências de um hospital público, sobretudo nos grandes centros, se arriscar a encontrar apenas um ou dois médicos que aparentam ter a idade da experiência, rodeados de grupos de jovens que acabaram de sair das faculdades, titubeantes, cheios de vontade de tratar dos doentes mas ainda sem saberem muito bem como. Muitos desses também ambicionarão sair dali um dia.

Para não falar dos portugueses que nem hospital têm perto e ainda vivem mais esquecidos e isolados, na doença e também na saúde, em tantos lugares do interior.

A par do aumento do descontentamento com os estabelecimentos de saúde públicos, fomos assistindo ao florescimento do negócio da saúde dos privados. E tem sido uma grande negócio, de outro modo ninguém arriscaria planear construir quase duas dezenas de hospitais nos últimos três anos. Uns para poderem chegar a mais zonas do país, claro, e outros mesmo no centro das grandes cidades, com enormes massas de betão em locais difíceis de explicar mas com vista privilegiada, como o que se ergueu mesmo em cima da estrada na zona de Alcântara em Lisboa.

Só a procura e os benefícios justificam tais construções e investimentos. Ao público, continuam a ir sobretudo os que não têm alternativa. Os mais desfavorecidos da sorte e do rendimento, que esperam, que se amontoam nas urgências, que não conseguem sequer tratar de uma cárie com dinheiro do próprio bolso. Esta é a realidade de vários milhões de portugueses.

Nada disto é novidade para quem olha para o setor da saúde em Portugal com o mínimo de atenção.

Não falta quem diga que é incomportável que o Estado, sozinho, possa garantir um sistema de saúde para todos os cidadãos por igual, com o número de doenças crónicas, o aumento da esperança de vida e os custos dos avanços na medicina. Não é difícil de acreditar. Que haja pois quem também trate do assunto: empresas, seguradoras, cidadãos, clínicas e hospitais privados. Que estejam também no jogo, mas que não queiram inverter as regras perante uma calamidade pública. Ou só jogam se for sempre a ganhar?

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