Coronavírus

O que acharam os alunos da telescola?

PAULO NOVAIS

Milhares de alunos portugueses, do 1.º ao 9.º ano, acompanharam as aulas da telescola com entusiasmo e uma pontinha de curiosidade. Os relatos são sinceros e espelham a realidade destas crianças - alguns já adolescentes - em tempos de pandemia. Por isso, importa perguntar: o que acharam os alunos dos novos professores, das matérias e da nova sala de aula?

Especial Coronavírus

Eram nove da manhã quando a professora Isa entrou na casa de milhares de portugueses, nas salas de aula improvisadas de centenas de alunos. Confessou-se nervosa, mas já trazia uma história "na manga" para convencer os novos alunos: "A casa da mosca fosca". Para os alunos do 1.º e 2.º anos foi um género de convite para uma festa na casa mosca, que partilhou um bolo com outros seis animais - e com certeza com os mais pequenos, que ficaram atentos em frente à televisão. Aprenderam rimas e divisões silábicas sem sequer terem dado conta.

LUÍSA

Luísa, aluna do 1.º ano, - residente em Cascais, mas a passar a quarentena em Proença-a-Nova - já ouviu a história da mosca fosca "montes e montes de vezes", até porque tem o livro em casa, mas desta vez foi diferente. Gostou da professora Isa. Em tom provocatório perguntei-lhe se preferia esta nova professora ou a "da escola", ao qual respondeu: "Olha, isso eu não sei. Se os dois estivessem a trabalhar, escolhia os dois. Os dois são tão bons que eu nem sei quem devia escolher", respondeu.

Achou a aula fácil, apesar de algumas coisas serem novas, e de não conseguir acompanhar tão bem como queria a leitura da segunda aula - na Hora da Leitura - porque "a letra era muito pequenina" e ainda não tinha aprendido algumas letras. Com a ajuda da mãe relembrou o título dos livros apresentados pela professora Isa - "O incrível rapaz que comia livros" e "Os ovos misteriosos", cuja autora tem o nome igual ao seu.

E, num ambiente que podia ser estranho, Luísa encontrou ainda mais semelhanças. "A sala de aula é parecida com a minha. A minha também tinha uma janela quase igual", disse entusiasmada. O trabalho continuou com a mãe, Ema, em casa, mesmo quando a professora Isa já tinha desaparecido da caixa mágica.

"Depois fiz as atividades...fizemos um jogo. Primeiro escrevemos o nome dos animais, depois eu tirava um dos nomes e desenhava esse animal. Cortei as palavras em pedaços, que eram as sílabas e fizemos outras palavras com as sílabas que tínhamos cortado", explicou de forma bastante clara.

A mãe ajudou e, também ela, gostou da aula e da forma "simples" e "prática" de trabalhar aqueles conteúdos, sem o aluno precisar de estar agarrado ao manual. Questionada sobre a telescola, Ema respondeu:

"Acho que é uma mais valia. Até para os pais perceberam como se dão as matérias nas aulas", conclui.

LEONOR

A aula da professora Isa foi também seguida com atenção pela Leonor, aluna do 2.º ano, de Braga. Quando questionada sobre o que achava sobre as aulas na televisão respondeu prontamente: "Fixe!". Também gostou da professora, da sala de aula, das histórias que não conhecia e confessou até que "estas aulas são um pouco mais fáceis" do que as outras que "eram mais ou menos difíceis".

O pai, Maciel, acompanhou a Leonor nesta primeira manhã de aulas televisivas. Também ele quis dizer algo:

"A aula foi interativa. Ela estava concentrada - coisa que nem sempre é fácil. Acho que estava a ver o que era, também por ser uma novidade. Achei que estava a gostar".

A telescola foi aconselhada pelos professores, que fizeram questão de publicar os horários e incentivar os alunos a criar rotinas num período em que tudo é diferente para pais, filhos e professores.

MARIA

Maria, aluna do 3.º ano, de Mafra, teve aula de Português e Matemática. "Foi giro", mas as "coisas iam muito rápido, é difícil de acompanhar", exclamou quando questionada sobre o que achou deste novo método de aprender. Gostou dos novos professores e das aulas, mesmo apesar de algumas matérias não serem uma novidade, como foi o caso da Matemática, pois já tinha aprendido os horários.

Enquanto falava da disciplina de Português e dizia que a aula "até foi fácil", voltou a referir um dos maiores problemas apontados por todos os alunos: "Foi um bocadinho difícil de acompanhar a parte dos exercícios".

Mas a mãe ajudou e, graças às novas possibilidades das tecnologias, puxou a emissão para trás para a Maria conseguir fazer as tarefas pedidas com mais calma.

MATILDE

Para os alunos do terceiro e quarto anos, hoje foi dia de estudar os horários, como fazê-los e como organizar as tarefas em função das aulas. Não era uma coisa nova no universo da Matilde, mas não deixou de cumprir as atividades sugeridas pelos professores da telescola.

Ainda não tinha sido feita uma pergunta à aluna do 4.º ano, de Braga, quando começou logo por dizer: "Gostei da escola na televisão". Gostou dos novos amigos da Matemática, o Miro e a Mirita - duas personagens construídas pelos professores - que a ajudaram a perceber a matéria.

Tem saudades dos amigos e das brincadeiras da escola, mas pensa que se vai habituar ao novo paradigma imposto pelo coronavírus. Com muita naturalidade afirma: "São aulas diferentes, são aulas em casa".

Matilde diz que as aulas de hoje foram fáceis e por isso, desenhou uma carinha - que pintou a verde - para mostrar que a autoavalição foi positiva. Aliás, o único problema que referiu foi o mesmo que as outras crianças: o ritmo das aulas. Teve que tirar fotografias à televisão para depois estudar os slides disponibilizados pelos professores.

E agora prepara-se para cumprir à risca as atividades deixadas pelas professoras de português: "Ler uma história, dançar, ajudar na cozinha, lavar a loiça, e regar as plantas. Só não escrevi regar as plantas, porque não tenho plantas", concluiu.

DUARTE

Duarte, que frequenta o 5.º ano de uma escola em São Domingos de Rana, foi o primeiro a lembrar a difícil tarefa dos professores neste tempo de telescola.

"Sentiste diferença entre as novas professoras e os da escola?"

"-É um bocado diferente, porque não sabem quem as está a ver. Então falam para o geral", respondeu.

"Achas que o trabalho delas também é difícil?"

"-Um bocado."

Hoje foi dia de falar de células em Ciências Naturais, uma coisa que o Duarte sabia que existia, mas ainda não sabia o que era. E, por isso, era normal que surgissem algumas dificuldades a acompanhar a matéria. Já em relação às dúvidas, ficam para tirar com os outros professores por videochamada.

Também Duarte foi o primeiro a deixar uma opinião vincada sobre esta nova sala de aula, referindo com espanto, que é bem mais moderna do que a da escola habitual.

FILIPA

Ao contrário de outros testemunhos, a matéria da telescola está a par da lecionada pelo professores da Secundária de Carcavelos, onde anda a Filipa, aluna do 6.º ano. Não reparou se os novos professores estavam nervosos, até porque se sentiu numa aula normal, "tal e qual como na escola", numa sala que apelidou de "gira".

Está a tentar manter as rotinas e a cumprir os horários impostos, com a ajuda dos pais, que a vão guiando ao longo do percurso. A Filipa diz ter "percebido bem as coisas" e, como tem uma turma "um pouco barulhenta", sente que ainda consegue aprender melhor assim, através das videoconferências e das aulas pela televisão.

JOÃO

Para João, que frequenta o 7.º ano numa escola de Braga, o segredo é "pôr o relógio a despertar, estar atento ao que os professores dizem e fazer as tarefas que mandam". E hoje, não foi diferente com a nova telescola. Já tinha dado a obra abordada na aula de Português e, por isso, foi "bom rever a matéria". Mas a História, é que as dificuldades começaram a aparecer. Matéria nova, aula de 30 minutos a uma velocidade alucinante para quem tem de tirar notas.

"A professora de História falava um bocado rápido. A parte que percebi melhor foi a da guerra de França", esclareceu.

Os conteúdos, porém, não lhe são estranhos, porque são os da Escola Virtual, também utilizada pelos outros professores.

Chegou à telescola por iniciativa própria e de familiares que o aconselharam a seguir estas novas aulas. Reparou que, na parede da nova sala de aula, há uma tabela periódica e que, num dos cantos, há um esqueleto. Sente-se agora curioso para conhecer os professores das outras disciplinas, até porque o horário da telescola "não interfere em nada com os horários da escola".

Rematou, em forma de resumo e desafabo:

"Acho que vai ser complicado para nos habituarmos, mas com o tempo chegámos lá".

INÊS

Inês, do 8.º ano, sentiu a mesma dificuldade que o João a História e, por isso, ia "parando para poder passar algumas coisas". No entanto, compreende a rapidez da professora, porque a aula é só de meia hora e as dúvidas ficam para tirar com os outros professores.

Na escola da Inês, os horários foram feitos tendo em conta os da telescola e foram criados intervalos para que os alunos não se sentissem sobrecarregados.

No geral, o balanço foi positivo. Segundo a aluna, os professores explicaram bem as matérias e é sempre bom manter a rotina escolar. A iniciativa de assistir às aulas partiu da própria que, como já é mais velha, gere as tarefas com mais autonomia.

Agora vai empenhar-se a fazer os exercícios de Português solicitados na aula de hoje, bem como as revisões de História, para que nada fique para trás.

LUÍS PEDRO

"A telescola é um instrumento que vou ter de utilizar para me manter a par da matéria. Acho que é uma experiência interessante e acho que os professores se estão a adaptar bastante bem a este novo ambiente", começou por explicar Luís Pedro, aluno do 9.º ano de Leiria.

Tal como aconteceu nos outros anos, a matéria é quase uma mistura de conteúdos desconhecidos com outros que já foram aprendidos anteriormente. Por enquanto, aos olhos do aluno, não há nada a melhorar. Contudo, salvaguarda que estas foram as primeiras aulas.

Apesar da mudança "drástica na rotina", pensa que se vai habituar à nova forma de aprender, até porque se sente "familiarizado com a tecnologia". "Está lá tudo", refere Luís Pedro, apontando que o único senão deste processo é a ausência de espaço para tirar dúvidas e a velocidade com que as matérias são lecionadas.